quinta-feira, 9 de março de 2017

O Caso da Nova


Não concordo com Jaime Nogueira Pinto na maior parte das vezes, é um facto, isso dar-me-á liberdade para o ouvir ou não. Impedi-lo de falar parece-me mais preocupante.
A Direcção da FCSH evitou o evento por não estarem reunidas as condições de segurança necessárias. Não há polícia? Não há castigo para os prevaricadores? Estamos a apaparicar uma cultura de medo? Isto vindo de uma faculdade que me parece presa e amordaçada a uma AE. Quem manda na FCSH, a AE?
O caso redundou na acusação de que o evento viria de uma associação com simpatias fascistas. Ora bem, deixem-se ser cínico e foi uma resposta que dei, enquanto aluno, a vários companheiros de faculdade. Os comunistas mataram mais, matam e prendem ainda hoje, do que os fascistas - poderá ter sido uma questão da dimensão dos países onde estes regimes foram instituídos... Por que é que eu olho para o fascismo de forma negativa e não para o comunismo? Por ter passado pelo primeiro? Por não ler a história do século XX? Por ignorar objectivamente as acções desses regimes porque tenho os mesmos ideais? (Lembro-me de uma declaração de Bernardino Soares acerca da Coreia do Norte, lembram-se?)
Tenham os heróis que quiserem, mas sejam coerentes. Não estou a defender o fascismo, estou contente em democracia, mesmo nesta! Prefiro-a, mas ver comunistas/bloquistas a defender a liberdade sem um mínimo de coerência para com os resultados de ambos os projectos políticos (de extrema direita e de esquerda), onde estes foram instituídos, parece-me um programa de futebol (deixo de fora o redundantemente "mau").
Nota pessoal: sempre me fizeram estranheza os comunistas/bloquistas da FCSH do meu tempo que, sendo de esquerda vinham de famílias com bem mais rendimentos do que eu, viviam à conta dos pais e das bolsas que conseguiam sem se saber muito bem como e eram gastas na farra. Será uma generalização, e como todas corre o risco de não ser totalmente exacta, mas abarca aqueles que, pertencentes às AE do meu tempo, conheci melhor. O que é que isto tem a ver com o caso? Continua a ser uma questão de coerência, a meu ver, claro!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Sonhos 3

Acorda cansado, como de costume. Mais uma vez não sonhou, desde que ela morreu que não sonha. Não, não é uma metáfora, é a triste realidade, nem nos sonhos, ou pesadelos, a vê. 
A morte quando a levou, levou-a do seu interior. Ela habita a casa, ainda, nas fotografias, na decoração, nas plantas que tenta não deixar morrer à sede. Por vezes, há cheiros que a relembram, como se ela estivesse ali ao seu lado. O velho videogravador comeu a cassete de vídeo que via, vez após vez, para ouvir-lhe a voz, o riso. 
Fecha os olhos e chora. Gostava tanto de sonhar com ela!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Sonhos 2



Abre os olhos, na penumbra do quarto. Sente o calor do corpo da esposa, há uma luz ténue a sair pelos estores. O silêncio esperado é quebrado pelo breve ressonar da esposa, vai virar-se para o lado quando outro som o acorda um pouco mais.
Alerta, tenta identificar o que ouve, sem grande sucesso. Ouve um som metálico, e por trás deste, menos audível, um som repetitivo, uma voz. O que ouve dura dois segundos. Pára e volta a soar, durante dois segundos. repetindo-se.
Vira-se de costas para a esposa e tenta perceber se o som é o despertador, o rádio, o telemóvel de um dos vizinhos. Deve ser isso! Mas está demasiado perto...tenta adormecer.
O ressonar dela mais audível. Bem como o som metálico e uma palavra, "erro".
Clink,"erro".
Muda de posição, encosta-se à esposa, que continua a ressonar. O som torna-se ligeiramente mais audível.
Clink. "erro".
A luz, agora mais forte, incide sobre o rosto da mulher, que está deitada de lado. Olha para ela e percebe que a orelha está num ângulo estranho, coloca o ouvido ao lado da orelha dela e percebe que o Clink, "erro", vem de dentro dela.
Admirado e surpreendido, temerosamente agarra na orelha e coloca-a na posição correcta. O som e a voz páram imediatamente, ela levanta-se, coça a orelha, coloca o dedo indicador no interior da mesma, o dedo todo, que roda uma e outra vez, não olha para ele, os olhos estão fixos num ponto, a boca abre e fecha. Quando puxa o dedo, este traz a orelha com ele. Ele olha para aquilo com surpresa e medo. Agarrados à orelha, fios e um líquido preto que escorre para cima da cama. "Óleo", pensa, e acorda!

Foto de Sara Luzia Falcoeiras.

(desenho da esposa - @ The Weight of Dreams )

Sonhos 1

Acorda irritado. 
Não consegue identificar a razão da irritação, ou melhor, sabe que é decorrente do sonho que teve, mas este foi levado pela amnésia de Morfeu. Por um lado, irrita-o sonhar e não se lembrar do que sonhou, por outro irrita-o sentir os resultados “anímicos” do sonho e não perceber a razão de tais sentimentos.
Sentado na sanita, ainda sonolento, tenta mergulhar dentro de si...volta a deitar-se e tenta embalar-se numa sonolência pouco natural, ainda assim, tem sucesso! Lembra-se da cara de uma colega do preparatório, a que não consegue associar o nome. Continua no estado de irritação, por um lado, porque tenta lembrar-se de um nome demasiado enterrado nas suas memórias, por outro lado, porque tenta lembrar-se do conteúdo do sonho e das razões de tal irritação.
Sem conseguir adormecer, lembra-se que a colega era gira, simpática, que tinham um relacionamento normal, nada que explique  a irritação...ah! no sétimo ano, quando os rapazes tentam afirmar-se de diferentes formas, um dos colegas, mais velho, atirava-se descarado a ela. Para parecer o macho alfa mais adequado, gozava com ele e ela ia na cantiga. Talvez tenha sido isso que sonhou, sabe que foi, um grupinho junto, o outro a gozar com a camisa dele, com o estrabismo, com sabe lá o quê, e ela a rir, a dizer que sim, a acrescentar alguma coisa. E ele calado, tentando argumentar uma ou outra vez, mas perante o chorrilho de críticas cala-se.
Levanta-se da cama, satisfeito com a análise semi-Freudiana, mas estupefacto com a acuidez do seu subconsciente. Não consegue identificar nenhum acontecimento que levasse a um sonho destes, nem se lembra do nome dela, nem do outro, nem das caras ou de qualquer outra característica. 
Porque sonhamos, com que objetivo? Lembrou-se vagamente de duas ou três pessoas, perdidas no percurso escolar, amigos durante algum tempo, mas desaparecidas, da vista e do coração, há imenso tempo.

Deixa que a irritação escoe, lava-se, come qualquer coisa e sai de casa! 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Hell or High Water


Hell or High Water (Custe o que Custar) é um dos grandes filmes dos últimos anos e dos melhores de 2016, a nomeação aos Óscares é merecida, está nomeado para Melhor Filme, para Melhor Ator Secundário (Jeff Bridges, no papel do velho polícia Marcus Hamilton), para Melhor Argumento Original e  Melhor Montagem.

Tanner (Ben Foster) e Toby (Chris Pine) Howard são dois irmãos que roubam pequenas dependências bancárias para arranjar o valor necessário para pagar a hipoteca do rancho que pertencia aos pais, e onde foi descoberto petróleo.

Hell or High Water é um filme actual, uma fotografia de uma certa América, em que o inimigo é um banco (!), que não entra em pregações desnecessárias, mas mostra, mais do que o lado humano, presente na figura dos dois protagonistas, o lado geográfico e social, os planos do Texas, marcados pela exploração de petróleo, pelas planícies vazias, pela vida diária das pequenas populações, pelos bancos e placards/posters publicitários das ofertas de empréstimos. O filme mostra a realidade de uma América longe da prosperidade, numa terra de ouro preto, conquistada não já pelos brancos, mas pelos bancos.

O Texas que nos é apresentado já não é o dos westerns, das planícies que prometiam nova vida e riqueza, mas o de uma América mal acordada de um sonho mau, em que o american way of life parece estar a escapar entre os dedos. Hamilton brinca maliciosamente com o índio, seu parceiro, em diversas conversas, continuando a "luta" entre brancos e índios.

O elenco e as interpretações são sólidos, há momentos deliciosos, por exemplo, o primeiro assalto, com um velhote a sacar da arma, a cultura de armas americana, ainda para mais no Texas, é deliciosamente ilustrada nesta e noutras cenas; Jeff Bridges irrita (no melhor dos sentidos) como Marcus Hamilton, um polícia a dias da reforma, que fala como se tivesse a boca cheia de favas, vencendo o round interpretativo no confronto final com Chris Pine. Há momentos ilustrativos da cultura texana e dos problemas dessa região, o Rock evangélico a soar na rádio, os casinos.

Não é um fime sujo, mas não tem a estética limpa de outros, os assaltos são realizados de forma pouco artística, sem grandes coreografias- É road movie cru, com ligeiras incursões ao ambiente de Cormac McCarthy, ligeiramente violento, mas conciliador, não é moralista, mas acredita em segundas chances, o que é um risco. Corria o risco de glorificar a violência, ou a ideia de que os meios desculpam os fins, não o faz de forma efectiva, opta por valorizar os laços entre os dois irmãos, criticar a acção dos bancos na vida dos cidadãos comuns, culminado na tentativa de criar algo bom e duradouro.
É um belíssimo quadro melancólico, doce-amargo, que me concilia com o cinema americano moderno, cheio de efeitos especiais, com pouco conteúdo ou com muito estilo e pouco conteúdo.
Altamente recomendado.







"I have been poor all my life. My parents and their parents before them, is like a disease, passing from a generation to generation (...) and now my boys, not anymore."

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

- Sabe, faz-me confusão a importância que se dá a inaugurações de hiper, super ou mini-mercados. Existem tantos, de tantos grupos económicos e particulares que fazer disso um acontecimento parece-me descabido.
- Hum, hum...
- As pessoas, aliás, tendem para um certo saudosismo para com o passado, o manual, o feito em casa, o tradicional e depois metem-se em shoppings, supermercados e não compram nada no comércio tradicional ou ao produtor. Fazem-me espécie as feiras do queijo, do vinho e do fumeiro das grandes superfícies.
- Ah, sim?
- Sim, gente que compra um produto falsamente tradicional, embalado e produzido sabe-se lá onde, com uma marca "mais ou menos" registada, com um selo a dizer "tradicional" e ficam animados com isso.
- Pois...mas desculpe que lhe pergunte...
- Pergunte, pergunte...
- Com ou sem Número de Contribuinte?
- Sem, obrigado.

A rapariga passa o cartão na máquina, deseja-lhe um resto de bom dia e olha para a fila interminável de clientes, que enche a loja no dia de inauguração. O ser humano é uma criatura estranha, mas auto censurável como aquele homem não se lembra de ter visto.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Segundas Hipóteses

Uma maldição, nas histórias de terror, é muitas das vezes uma promessa. Promessa de vingança, de terror redobrado, em Harrow County parece ser uma promessa de renascimento, de renovação da natureza da personagem principal.

Harrow County começa assim: "As gentes de Harrow County condenaram a bruxa à morte...mas a bruxa não morreu facilmente. Hester Beck tinha sido alvejada, esfaqueada, espancada...e, por fim, enforcada pelo pescoço. Contudo, ela tinha sido um deles...uma vizinha e... por vezes...uma amiga...e os que a mataram ter-lhe-iam dado um enterro digno e a extrema-unção...mas a chuva deixou as páginas da Bíblia em branco. Em vida, Hester tinha sido uma curandeira. Curava debilidades e doenças com feitiços murmurados...afastando-as com tanto à-vontade como se afugentasse gatos vadios.

Estes amigos e vizinhos homicidas sabiam... que, tal como Hester podia curar os outros...também podia curar-se a si mesma. Por isso condenaram-na à bala, à lâmina, ao laço... e, por fim, ao fogo. Mas mesmo até enquanto a sua carne ardia do osso...Hester agitava-se e silvava. "Não é o fim...nunca é o fim para mim... eu vou voltar... outra vez... fiquem atentos e preparem-se... seja para cuidar ou matar... mas eu voltarei a ver-vos a todos!""

Harrow County começou por ser um romance e foi transformada em série de BD, talvez isso explique a escrita, cuidada, ambiental, soturna. Uma escrita que podia parecer desajustada num "mero livro de BD", caso fôssemos trôpegos e singelos de mente.
É dos casos mais flagrantes da beleza de sincronia entre texto e imagem, os desenhos de Tyler Crook, pintados a aguarelas, caem que nem luvas no texto de Culenn Bunn, numa simbiose perfeita de estranheza e beleza mórbida.

A história avança para o dia a dia entre Emmy e o seu pai, e rapidamente percebemos que Emmy será a maldição prometida, o regresso de Hester Beck. O primeiro volume deixa mais perguntas do que respostas, mas coloca Emmy perante essa descoberta e a necessária resposta, será que a natureza miraculosa, entretanto descoberta, dará lugar ao caráter maléfico e demoníaco explicitado nas primeiras páginas? Por enquanto, não! Emmy cresceu num ambiente controlado, sentindo-se amada. É uma jovem que quer descobrir o mundo, mas que gosta do mundinho em que cresceu. Sente uma dívida para com o pai que a criou.

Harrow County começa, logo neste primeiro volume, a criar a sua mitologia, O Rapaz sem Pele, os fantasmas, O Abandonado são criaturas sobrenaturais que habitam a região e que, alguns, defendem Emmy, abrindo-lhe o caminho para a descoberta da sua natureza. Se esta descoberta alterará a sua "moral"(se cuidará ou matará) é algo que fica em aberto, mas Emmy toma algumas decisões que mostram que está consciente do seu poder e que o usará, sempre que necessário, mata quando tem de matar para se defender, mostrando a sua força de carácter.

A árvore em que Hester é enforcada é uma das personagens deste livro, parte integrante da história de Harrow County, da bruxa, dos sonhos de Emmy, é "junto" a ela que Emmy descobre o seu passado negro, algumas das mais belas páginas do livro (Emmy no quarto, com o Rapaz sem Pele, e os habitantes de Harrow County junto à árvore, fazendo planos para se salvarem).

A natureza de Hester Beck e dos seus atos começa a ser desvelada, há milagres, há curas, há pactos e relações com o demoníaco que deixam entrever mais revelações. Somos apresentados a uma Hester que é também demiurga, que papel e qual a extensão da sua criação são perguntas para serem respondidas em números futuros.

Um belíssimo e sólido primeiro volume que nos leva a uma região escura, estranha e "maravilhosa", cheia de mistérios, que descobriremos passo a passo acompanhando a jovem Emmy no seu desabrochar. Estará para cuidar ou para matar? O segundo volume já não demora muito.






sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Lala Land

Não gosto de musicais, não sei se vem dos filmes de Bollywood que a minha mãe via e que nós víamos com ela, em pequeno; não sei se vem de ter dançado (surpresa!), num clube de inglês, no 5º ou 6º ano, uma cena de Serenata à Chuva e de ter visto essa cena perto de uma centena de vezes.
Sei que sinto uma espécie de urticária sempre que as personagens começam a cantar e a dançar, avançando ou não a narrativa; escusam de me tentar convencer das maravilhas e qualidades de Música no Coração, dos filmes de Astaire e Rogers, de Grease, Os Miseráveis, Fantasma da Ópera e quejandos, fujo deles a sete pés.
Gosto de um musical, Moulin Rouge, que vi duas vezes, ambas em cinema, pelo visual feérico e pelas músicas contemporâneas que usa. Não sei se envelheceu bem ou mal...
Quando Lala Land foi nomeado para um número sem fim de Óscares, batendo ou igualando o feito de Titanic decidi que tinha de o ver, mais não fosse para o comparar com um dos meus ódios de estimação, o tal Titanic, e para poder dizer mal dele.
A verdade é que a única coisa que sabia de Lala Land é que era um musical, da história nada. Fui às escuras, mas saí a ver a luz, pelo menos uma luzinha.

Lala Land é sobre o relacionamento entre dois aspirantes, ele, músico de jazz envolto numa cultura que já não conhece e ama o jazz, sonha abrir um clube de jazz, onde possa dar a conhecer o que tanto o preenche; ela, aspirante a atriz, funcionária numa cafetaria.
Os primeiros dez minutos foram sofríveis para mim, depois de uma cena cantada e coreografada (na minha modesta opinião, sem grande chama e originalidade, pouco mais é do que uma flash mob), mais uma cena a filmes musicais, com Ema Stone a cantar com as colegas de casa (e a urticária a crescer).
Mas assim que o foco passa para Sebastian (Ryan Gosling) e o seu piano, o filme começa a crescer de interesse, para mim.
Como não gosto de musicais, a minha mente tentou explicar-me, durante o filme, porque é que não podia gostar do filme, e confesso, há várias coisas que me passaram ao lado ou que me desagradaram.
Tem gente a cantar e a dançar (eu sei, estou a repetir-me; mas o Gosling a cantar não me convenceu - uma espécie de Harry Connick Jr. sem chama); tem algumas músicas mornas, inicialmente, mas ao ouvir a Banda Sonora a noção de conjunto é impecável, há ali uma temática e unidade invejáveis; há o John Legend (sorry, não sou perfeito); há planos e efeitos visuais recursivos, que perdem a piada ao longo do filme (o plano que escurece para iluminar somente o(s) actor(es)); uma cena que é demasiado kitsch (a do Planetário), mas em que se percebe a intenção, ainda que esta falhe.
Mas a realização é competente e minimamente interessante, tenta glosar alguns planos mais clássicos dos musicais tão caros à Hollywood da década de 30 e 40, ainda que tenha claras influências da geração do telemóvel na mão; tem um sentido de humor delicioso; é despretensioso; tem uma boa banda sonora; o filme pode ser visto quase como uma música de Jazz, há variações, pontos de vista diferentes, diversos "andamentos"; talvez pelo papel do piano, e de uma ou outra citação, fez-me lembrar de Monk; o final foge ao cliché habitual e fecha o filme com um toque de melancolia, que segundo a esposa perpassa todo o filme.
Os musicais da Hollywood antiga eram o produto do star e studio system, este não é, mas traz alguma nostalgia aos dias de hoje homenageando o jazz e o cinema, com tino e sensibilidade.

Uma boa surpresa, ainda mais para mim, que não gosto de musicais (eu sei, já não me repito mais).



quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Eugenia

In Overy, Richard - 1939 Contagem Crescente para a Guerra

Leio na Wikipedia que Eugenia é um termo criado por Francis Galton, que significa bem nascido, na acepção de Galton, eugenia seria "o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente".
O nazismo irá pôr em marcha a eugenia como forma de purificar a raça ariana. Não deixa de me surpreender que poucos dos ideólogos nazis, Hitler, por exemplo, fossem exemplos ideais desse arianismo!
Não sei até que ponto é que a eugenia nos choca, hoje. Seremos rápidos a criticar e condenar a eugenia nazi, mas a sociedade em que vivemos está a começar a ser eugénica.
A imperfeição genética é o suficiente para que muitos parem uma gravidez até aí desejada. Não me quero colocar na sua pele, mas será lícito achar que alguém com Trissomia 21 não tenha direito a viver? Conheço algumas pessoas com Trissomia 21, que são pessoas como eu, com algumas diferenças, claro, mas são pessoas como eu. São felizes, ativas na sociedade, ainda que com algumas "limitações". Mas terei eu o direito de os condenar a um fim antes do nascimento?
O sonho de alguns é poder escolher não somente o sexo do filho, mas também a cor do cabelo, dos olhos, quem sabe se daqui a alguns anos o peso, o QI e a inclinação sexual.
O Henrique Raposo escreve e explica melhor do que eu.
Ao fazermos um filho estamos a criar vida ou a espelhar-nos nele? Não será o aborto nestes casos uma forma extrema de egoísmo? Não consigo deixar de pensar na máxima do Gustavo Santos, Ama-te, se calhar estou a ser injusto, mas depois de ter investido uma hora e meia a ouvir uma entrevista com ele, não consigo deixar de ampliar o pensamento dele. Se algo não me faz feliz, se não é o caminho que quero para mim, não o devo fazer. De alguma forma, esta é a base atual deste tipo de eugenia, seja por medo (de falhar, de não conseguir, da sociedade, da piedade alheia), por vergonha, por achar que aquela vida é inferior, por achar que aquele ser não será feliz ou completo, acho-me no direito de impedir uma vida.



E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes. 
Marcos 12:31




Leio um pequeno livro de história de Richard Overy sobre os dias que antecedem a II Guerra Mundial. A páginas tantas, o excerto acima fotografado.
Sorri e identifiquei-me com Mrs. Chamberlain. Na iminência de uma guerra, na iminência de sofrer bombardeamentos, na iminência de ter de se refugiar em abrigos subterrâneos, a preocupação dela, uma delas, pelo menos, é escolher e carregar um cesto de livros.
Não sei o que terá pensado, mas acredito que a ideia de estar fechada durante algum tempo lhe pareceu ilógica sem a presença e companhia de livros. Terá demorado algum tempo a escolhê-los? Terá sentido a pressão de se apressar? Ignoro.
Mas identifico-me com a presença de páginas para atenuar o tédio, o medo, a incerteza.
O Primeiro-Ministro Chamberlain é uma figura que divide opiniões, figura que Overy tenta explicar e de alguma forma contextualizar. De qualquer forma, já ganhei simpatia pela esposa. Que livros terá ela escolhido?

In Overy, Richard - 1939 Contagem Crescente para a Guerra

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

The Walking Dead - estreia da sétima temporada


Depois do turn off que foi o final de temporada, The Walking Dead volta em quinta, mas ainda com alguns problemas. 
A brutalidade das mortes (confirma-se, são duas) está mais na forma, do que na identidade dos mortos. Arrisco-me a dizer que a montanha só não pariu um rato por causa da violência do episódio; mais do que a originalidade ou choque com a identidade dos mortos, o episódio fica em nós pela violência e mudanças que trará às personagens. O choque prometido pelo produtor é muito menos por causa da identidade das vítimas, mais pelo tom do episódio, mas deixou a milhas a violência do número de bd em que Glen é morto, o que é dizer alguma coisa. Ainda assim, poderá ser demasiado violento e non-sense para alguns dos espectadores. Para alguns será violência gratuita, para outros o resultado óbvio do mundo em que a série se passa, mas pode querer indicar um novo status quo para a série. Psicologicamente, o episódio é mais pesado do que graficamente e o objectivo é esse, ainda que Rick já tenha soçobrado psicologicamente umas vinte vezes, a determinada altura é difícil tocar na tecla novidade de forma original. Do Rick durão e psicótico voltamos ao Rick diminuído psicologicamente. Again. Durante quantos episódios? Rick é um bocadinho esquizofrénico a mais para o meu gosto.
Os produtores nem evitam um toque kitsch no final, tão desnecessário quanto previsível. Mas há uma ou duas cenas que funcionam bem, a cena com Carl, por exemplo, ainda que haja ali menos uma ameaça, mais um medo genuíno de pisar o risco.
O busílis é só um, é para continuar neste ambiente durante toda a temporada ou vamos ver o pé no travão e engonhar como na temporada passada? Depois desta introdução, como vão desenvolver Negan, claramente um vilão diferente de The Governor?
O próximo episódio já promete uma mudança de foco, com a acção a cargo do outro grupo de sobreviventes. Oh não, os chatos (a Carol traumatizada, o padre e Morgan) voltam a ter tempo de antena...

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Má publicidade

Em agosto, comprei um livro de bd, da coleção da Salvat, Marvel Graphic Novels. Era o Homem-Aranha - Nascimento de Venom e na capa vinham dois nomes, o do argumentista (David Michelinie) e do desenhador (Todd McFarlane). 
Tenho muita coisa do Homem-Aranha dessa altura, mas não me lembrava de ter esta história em particular, comprei o livro não por causa do Venom, mas pela arte de McFarlane. 
O livro é uma compilação de 7 comics americanos e só um é escrito e desenhado pelos nomes inscritos na capa, cinco deles têm arte de Ron Frenz, o que não é bem a mesma coisa.
Paguei 12€ pelo volume, fechado em papelaria, não se pode abrir, e quando cheguei a casa senti-me defraudado, ainda por cima o número desenhado por McFarlane eu já tinha!
Se tivesse comprado o livro numa livraria era mais ou menos certo que o poderia devolver, numa papelaria é mais complicado.
Tentei contactar a editora, que acaba por não ser a Salvat, porque a coleção em Portugal é responsabilidade da Urbanos. 
Primeira dificuldade, os contactos no livro são escassos, há um e-mail para assinaturas e aparentemente para apoio ao cliente, mas ao fim de uma ou duas semanas ainda não tinha resposta à queixa que tinha feito. 
Na net, a página de Facebook da coleção leva-nos para a edição brasileira e o e-mail está a cargo de uma equipa no Brasil. No site da Salvat Portugal a coleção não consta dos seus lançamentos. Como da Urbanos ninguém me diz nada, decido levar o caso para a página de Facebook. Resposta quase imediata.
Troquei mails com eles durante duas semanas, até perceber que não tinham percebido a queixa feita, depois de lhes explicar o conteúdo da mesma pedem-me para esperar pela resposta do editor. 
Esta semana, e após quase um mês de silêncio, voltei a pedir uma resposta. Chegou.

" A queixa que apresenta é relativa à apresentação do livro versus o seu conteúdo, mas esta edição é a tradução e adaptação fiel de um volume que foi aprovado tal qual pela Marvel, e que consta da lista de Graphic Novels oficial de onde saem os volumes para a colecção portuguesa com o mesmo visual. Como referência, poderá ver aqui a capa da versão inglesa, por exemplo, que é igual:
Para além disso, na contra-capa consta a lista das revistas originais que estão incluídas no livro; bem sei que pode ser complicado ir verificar tudo, mas não me parece que seja de dizer que há aqui algum tipo de publicidade enganosa. É muito frequente só se citarem os autores mais importantes na capa, e a linha gráfica desta colecção tem ido por incluir apenas 2 autores.
Ou seja, e no fundo, qualquer queixa que possa haver relativamente a este volume e à maneira como está publicitada a sua equipa criativa, tem a ver com a versão original do livro desenvolvida pela equipa da Marvel, e com as suas opções gráficas e de publicidade.“
Satisfeito com o facto de ter obtido uma resposta, mas insatisfeito com a mesma, respondo. Uma coisa é eu comprar algo que vem aberto e ser responsável pela compra que faço, outra é ser induzido em erro. Agradeço a atenção dispensada e digo à minha interlocutora que vou enviar-lhe o livro de volta, que lhe dê o fim que entender, que não o quero.
Responde-me, articulando a devolução do livro e do dinheiro gasto no local de compra. Devolvi-o e recebi o dinheiro pago por ele. 


Escrevi este texto para o Facebook a semana passada e decidi replicá-lo aqui no blog, decidi fazer mais umas pesquisas e deparo com a capa enviada pelo editor do livro. Sem querer, percebo que o argumento dele ainda é mais fraco, o livro na edição em inglês tem mais alguns comics do que a edição portuguesa, fazendo com que o número de edições desenhadas por McFarlane cresça, em vez de uma são quatro, o que de alguma forma apoia, um pouco mais, a decisão de colocar o nome de McFarlane na capa! Coisa que não acontece com a edição portuguesa, porque não tem todos os números da edição original, como o editor (que ainda não sei quem é, me disse).

Andei dois meses nisto e acabei por chegar a um bom porto, algo que duvidava vir a acontecer, até pela pouca transparência no que aos contactos diz respeito e pela ausência de respostas rápidas numa primeira fase.
Um livro é um bem como qualquer outro, e por isso devia ser mais fácil a troca ou devolução como fazemos com outros produtos. Já o fiz, porque é possível e com muito menos transtornos, numa livraria. Raramente o faço porque sei o que estou a comprar e dou uma vista de olhos ao que compro antecipadamente. No caso de livros destes, fechados, só podemos acreditar na capa e essa induziu-me em erro. 
Enfim, saga terminada.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Regressos

Quando me vi desempregado em 2014, tinha onze anos de docência no currículo. Fazia o que gostava, num contexto simpático, o do ensino superior politécnico. Dava aulas a adultos, uns mais do que outros, mas nos últimos dois anos já o fazia a prazo.
Foram dois anos e meio de desemprego duros, costumo dizer que o desemprego sabe bem nos primeiros dois meses, a partir daí foi uma luta contra o ritual de ir buscar uma folha assinada, a ausência de respostas, com propostas a roçar o patológico e com total falta de respeito para com quem procura emprego. Enfim, é o país que temos. Avancemos.
O ano passado consegui um biscate, este ano o biscate aumentou ligeiramente de dimensão, mas ainda não dá para sobreviver. Mas enfim, volto a dar aulas, num dos sítios onde o fiz durante algum tempo. Com caras conhecidas, ao lado de amigos e amigas. É bom voltar e ser bem recebido, é bom voltar a fazer aquilo que gostamos, é bom voltar a sentir aquela sensação de inadequação.
Hoje, estou em reuniões, amanhã volto à sala de aula.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Bruxa

Sentada, descansando as pernas e a alma, se é que é possível descansá-las, pensava na morte, próxima, tão próxima que lhe sentia o cheiro. Acordou com os gritos.
A sala onde estava fechada era escura, mas iluminada por frechas do telhado, não sabia se era o sol que se descobria ou se era a noite que chegava. Tinham-na deixada inconsciente, fora apanhada por um grupo de populares, que a pontapeara. Por isso afagava as pernas, ainda que todo o corpo estivesse cheio de hematomas, a pele branca era agora arroxeada, como que por milagre a cara não tinha sido atingida, por milagre pensava ela, afinal tinha sido propositado. A morte de alguém é sempre um marco, mas matar uma bruxa tem mais sentido quando se reconhece quem se queima na fogueira. Era esse o modus operandi do vigário, "apanhem-nas, amoleçam-nas, mas não as desfigurem. Todos devem reconhecer uma bruxa".
Afinal o cheiro que sentia era o da lenha, pronta para a queimar e provavelmente a outras.
Chegara à aldeia há 10 anos, fugida da guerra que lhe matara a família. Fora assim que explicara a sua chegada, agora, ali, na penumbra, pensa que não é a guerra que mata ninguém, somos nós, homens e mulheres, toldados pelo medo, pelo ódio, pela violência.
Tendemos a chamar nomes ao que não conhecemos, aprendera desde miúda a arte do herbarium, com a velha avó. Fugida da guerra, atravessou montanhas e rios e teve de aprender uma nova língua. Começou a trabalhar no campo, o suficiente para lhe dar o que precisava, pouco a pouco foi fazendo amigos.
Não é normal uma mulher da sua idade só. Não é normal uma mulher da sua idade tão bela, ainda para mais trabalhando de sol a sol entregue aos caprichos da natureza. Não é normal uma mulher saber tanto de plantas e ervas. É?
Nada disto por si lhe ditaria a sorte funesta. Há dois anos chegou o vigário, homem seco, tanto de carnes como de feitio. Ela reconheceu-o, mas guardou-o para si.  Estava na igreja na primeira missa, a face dele era-lhe familiar, mas não conseguia perceber de onde. Ele lia I Coríntios 13 e quando gritou "Sem amor" ela empalideceu. Há onze anos ouvira aquela mesma voz, comandando um grupo de homens, mandando que estes exterminassem crianças e velhas. Saiu à pressa, sob o olhar de todos.
Naquela noite não dormiu, via a cara da mãe e dos irmãos, do pai já não se lembrava. "Será que o padre se lembra de mim?"
No início pensou que não, que estava incógnita. Talvez o estivesse, talvez o padre tenha perguntado por ela, talvez tivesse sabido de onde ela viera, alguém poderia ter contado o que ela contara quando chegou à aldeia. Deixou de ir à igreja, temerosa, temendo o homem, não o Senhor.
Dois meses antes, a "caça às bruxas" começou , pensou em ir-se embora, mas poucas vezes se cruzara com o diácono e nas poucas vezes em que acontecera ele tinha sido simpático, nada lhe indicava que ele sabia quem ela era. Fugir, outra vez? Para onde?
Da rua chegam-lhe gritos, urros, o murmurar de uma multidão. A porta abre-se, reconhece o homem que a agarra com maus modos, ódio e talvez temor.
"Jan, não. Porquê?"
Ele agarra-lhe nos cabelos, puxa-os, quase que a vira ao contrário e puxa-a pela porta. Consegue perceber, entredentes, a palavra bruxa.
Esperneia, grita por misericórdia, mas é levada, com a ajuda de mais dois homens, em direcção de uma pilha de madeira, com um tronco no meio. Consegue ver, de relance, duas fogeiras já acesas, com dois corpos, parecem duas bonecas, queimadas. O cheiro a carne assada dá-lhe voltas ao estômago, num misto de fome e agonia.
Atam-na à fogueira, o som é ensurdecedor. Os gritos que, por momentos, pensou que fossem só dela são de toda a aldeia. Crianças, mulheres, velhos, homens, gritam como animais, desejando a morte e o fogo dos infernos.
Chora, grita por clemência, diz-se inocente.
Um homem pequeno que não conhece aproxima-se com uma tocha acesa, que aproxima da madeira. Começa a sentir o calor das labaredas, tenta soltar-se, "Que Deus tenha piedade da tua alma", ouve o padre dizer na sua voz de homicida, mas de ar compungido. O povo cala-se, benze-se e parece olhar para os céus, pedindo a misericórdia divina.
Um troar enorme parece abrir a terra ao meio, depois, por uma milésima de segundo, um raio ilumina ainda mais o dia que nasce.
Perante o ar compungido do público, começa a chover sem que haja nuvens.
"Bruxa! BRuxa! BRUxa! BRUX..."

As chamas apagam-se, a praça fica vazia. Ela pensa na morte e em Deus, engalfinhada pelo fumo negro da madeira molhada.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Owen Rules!

So much as we see the love of God, so much shall we be delighted in Him. Every other discovery of God, without this, will but make the soul fly from Him; but if the heart be once much taken up with this eminency of the Father´s love, it cannot choose but be overpowered, conquered and endeared unto Him.
(...)
Exercise your thoughts upon this very thing, the eternal, free and fruitful love of the Father, and see if your hearts be not wrought upon to delight in Him.
(John Owen)

Owen volta a este exercício vezes após vezes, num livro sobre a tentação, demora algum tempo a relembrar-nos que muitos dos nossos pecados são internos, de pensamento. A resposta é similar, pensem nas coisas do alto, quando perceberes que a tua mente, os teus pensamentos, a tua imaginação te leva a pecar, pensa nas coisas do alto, no amor de Cristo, na vida, morte e ressurreição do Unigénito do Pai. Esse pensar, meditar nas coisas do alto, esse relembrar do preço da salvação deve levar-te à ação.
Simples, sem ser simplório, fácil, mas tão olvidado.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Vista Parcial da Noite

Um dos livros encomendados que não chegou a ser comprado no Brasil, pelo Carlos, foi Vista Parcial da Noite de Luiz Ruffato, encontrei-o, surpreendentemente numa FNAC a preço da uva mijona. 
Vista Parcial da noite é o terceiro volume, de cinco, de uma série intitulada Inferno Provisório, uma série de romances que retrata a classe operária entre a década de 50 do século passado e o início deste. Tinha lido uma lista de livros que o considerava como um dos livros recentes da literatura brasileira a ler, pela temática parecia-me um romance neo-realista, mas enganei-me, para o ser precisava de uma visão (e função) politizada, que não tem, pelo menos de forma direta e objetiva. 
Vista Parcial da Noite não é um romance per si, mais um livro de contos. Ruffato diz que teve dificuldade em encontrar a forma para a série. Não queria escrever um romance nos moldes tradicionais, que descreve como uma forma de e para expressar uma visão do mundo burguesa. Não queria escrever uma série de romances sobre o proletariado numa forma burguesa, por isso, foi protelando a publicação de Inferno Provisório. 
Quando lançou Eles eram muitos cavalos, a editora não o viu como um romance, mas como um livro de contos, e livros de contos não vendem. Com o sucesso do livro e os prémios que ganhou, Ruffato achou que a forma podia ser usada com sucesso para Inferno Provisório. 
Desta forma, Vista Parcial da Noite não segue um determinado número de personagens do início ao fim, a personagem principal é a classe operária, nas suas diferentes concretizações. Assim, são onze histórias, que nos mostram as misérias e agruras num sem número de cenários em Cataguases, uma mãe abandonada pelos filhos, um jovem abalado pela notícia ouvida na rádio - Cataguases vai ser bombardeada pela Lutwaffe, a homenagem às antigas Rainhas do Carnaval, o nascimento e fim de um clube de futebol, entre outras tantas vivências doridas. Ruffato domina o ofício da escrita, esta é multiforme, viva, rápida, depurada, pede uma leitura atenta e demorada. Pessoalmente, foi uma surpresa. A primeira página chocou-me e animou-me ao mesmo tempo. A ausência, por vezes, da pontuação requerida, a profusão de vozes, a descrição multiforme agarrou-me desde o início, mas não sabia ao que ia. Tentei nos primeiros três contos encontrar pontos de contacto, personagens, para ser mais explícito, sem grande sucesso. Compreender a estrutura do romance enquanto conto e a classe operária enquanto personagem coletiva foi parte do prazer da leitura.

Reduzir o prazer que tive ao ler Vista Parcial da Noite à forma é redutor (desculpem-me a redundância). Dizê-lo seria reduzir o livro à forma (exterior), os contos são narrativamente fortes, mas a trama é suficiente para que os mesmos permaneçam. No entanto, a estrutura interna do romance, deduzo que da série, a forma como vai desvelando a realidade social e familiar, emocional e psíquica das personagens, faz deste pequeno livro um enorme prazer. 
Escrevia há dias que há autores que leio somente pela escrita, deixando a trama para segundo plano, Ruffato junta as duas coisas, de uma forma quase nova. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Ciclismo

Para o Tiago Cavaco, que me pediu o texto
Para o Timóteo Falcoeiras, por razões explicadas abaixo

Como é que um tipo anafado, adiposo ou corpulento, escolham vocês, sem qualquer capacidade de equilíbrio num veículo de duas rodas se torna fã de ciclismo? O desemprego tem um papel preponderante, mas não explica tudo.
Comecemos lá atrás, na infância. Os progenitores decidiram comprar uma bike, como era comummente conhecida na altura, ao irmão mais novo, passando por cima do fator etário. Fiquei chateado com o facto de não me ter sido dada a mim? Não! Na altura, como hoje, preferia um (vários, na verdade) livro a algo que se assemelhasse a exercício físico. O que não quer dizer que não tenha experimentado a bicicleta/bike do meu irmão. Conto dois episódios, marcados indelevelmente na minha memória.

A Paio Pires dos anos oitenta e noventa era marcada por campo e mato, onde hoje existem edifícios junto à Igreja Evangélica, na altura era campo e estradas de areia, polvilhadas por silvas. Um grupo de miúdos andava para a frente e para trás e era o terreno ideal para o meu irmão andar na bicicleta nova. Eu também quis. Ora, eu, em cima de uma bicicleta, sou o mais parecido com um Chaplin, Buster Keaton ou Tati em cima de uma bicicleta, volante para um lado, volante para o outro, mas sem a destreza e finesse destes. Resultado? Uma queda espetacular em cima das silvas. De um lado, o irmão mais novo agastado com as marcas que a bicicleta nova ostentava; do outro, o irmão mais velho, silvado por todo o corpo e roupa.

Montes Juntos, terra do avô, aldeia alentejana e raiana, próxima do Alandroal. Numa tarde quente de verão, o meu irmão, eu e o meu primo brincamos na estrada deserta, polvilhada de poias de vaca, a bicicleta passa de mão em mão. Subimos a estrada, que desce levemente até perto da entrada da casa de um tio, é a única casa nessa rua, do lado contrário, um muro acompanha toda a rua. É a minha vez, pego na bicicleta, monto, subo esforçadamente a rua e desço. Mais uma vez, a minha destreza faz com que a bicicleta vire para a direita e para a esquerda, ebriamente. Infelizmente, à minha frente, de costas para mim, caminha uma anciã, de roupas negras, baixa e lenta, segura a caminho da venda, ignota do veículo na sua direção. Relembro o ar assustado e divertido do meu irmão e do meu primo, imagino o meu ar. Em tempos pré GTA, falho a velhinha por uns míseros centímetros, batendo violentamente contra o muro, que me acolhe na sua dureza, impávido e sereno. Saio incólume, a bicicleta não tanto. Agastado, novamente, o meu irmão, proibiu-me de voltar a andar nela, pedido prontamente obedecido.

A distância entre mim e as bicicletas efetiva-se, durante anos estas desaparecem dos meus pensamentos, vou vendo uma etapa da Volta a Portugal e da Volta a Espanha aqui e acolá, sem grande ânimo ou gosto particular. Lá no fundo, uma inveja e admiração profundas por tipos que não só conseguem andar nelas, mas fazer daquilo carreira, correndo horas e horas em terreno plano ou íngreme.
Há quatro ou cinco anos, no Pinhal Novo, no terreno dos avós da Sara, nas tardes indolentes de verão, chapinhadas com a água do tanque, descanso o corpo no sofá e acompanho algumas etapas do Tour. Nasce ali qualquer coisa.
Como dizia, com o desemprego, em 2014, que aconteceu em Abril, tenho mais tempo livre e consigo sentar-me frente ao televisor a ver o Tour, a filha desespera, são duas ou três horas em que monopolizo o televisor, a ver uma valente "seca", "pessoas a andar de bicicleta!" A admiração transforma-se em prazer e vou acompanhando as diferentes provas que os canais da Eurosport transmitem. Não consigo ouvir outros comentadores, em canais nacionais, o pedantismo e falta de humor chocam com a familiaridade, humor e know how de Olivier Bonamici, Paulo Martins e Luís Piçarra. O pseudo-profissionalismo cinzento choca com a amizade e familiaridade destes três comentadores, que nos recebem como que amigos em sua casa. 

"Seca" deve ser o adjetivo que aqueles que me conhecem e falam comigo acerca de ciclismo mais aventam para descrever uma das minhas atividades favoritas, ver ciclismo. "Não sei como consegues!"
O ciclismo para mim é um misto de emoções e experiências, de um lado, o aspeto turista, os postais animados, polvilhados de castelos, palácios, montanhas, lagos, piscinas naturais, gado e pássaros; de outro lado, o trabalho em equipa, os vencedores das provas de World Tour de três semanas não são nada sem a equipa, escolhida a dedo, que vai trabalhando em prol deles, muitas das vezes sem que o foco do holofote caia sobre estes corredores. Alguém que acompanhe minimamente as provas de ciclismo sabe o nome de alguns dos grandes ciclistas, mas ignora o nome dos que fazem o trabalho de "sapa". Esse é um dos aspetos que mais me fascina no ciclismo, um trabalho de equipa em prol de um corredor, de uma estratégia, de um fim. O esforço titânico de manter um colega em corrida, por vezes, em esforço mútuo, para que ele chegue ao fim em condições de ganhar ou a etapa ou a corrida.  A forma desinteressada como depois do trabalho feito se levanta o pé, diminuindo a velocidade, consciente do trabalho feito. 
Por outro lado, o ciclismo assemelha-se a um jogo de xadrez com pessoas montadas em bicicletas, quando atacar, quando defender a posição, quando impedir uma fuga? O Tour deste ano foi um bocadinho uma seca, porque o trabalho da Sky foi tão bom que impediu grandes surpresas entre os candidatos à vitória final, ninguém quis arriscar com medo do que lhe pudesse acontecer e Froome ganhou sem grandes dificuldades, mesmo tendo corrido a pé, à espera de uma bicicleta, depois de uma queda numa das etapas. 


Há outra coisa, mais maliciosa, que me excita, as quedas. Não têm piada nenhuma, algumas são mortais ou perigosas o suficiente para acabar com a temporada ou carreira de um ciclista, mas são mais um condimento espetacular de um desporto que consegue, por causa delas, ser mais imprevisível do que outros.


No entanto, o ciclismo não se limita, para mim, às transmissões televisivas, vou lendo livros, revistas e artigos sobre ciclismo. Uma das coisas que mais me surpreendeu, inicialmente, foi a capacidade e destreza de alguns autores a escreverem sobre ciclismo, a descrição das etapas, por exemplo, Richard Moore em Étape, consegue ser um mimo literário, a capacidade de nos emocionar, ver o que não vimos, comparar com os vídeos no You Tube; a descrição psicológica e emocional dos ciclistas em The Yellow Jersey Club de Edward Pickering, tem aumentado o meu amor e respeito pela modalidade. Há um livro que guardo na minha coleção com fervor e devoção, Legends of the Tour de Jan Cleijne, um livro de BD, com a história do Tour, brilhantemente desenhado e com o fervor próprio de um amante e praticante amador da modalidade. 


Mas o ciclismo não é feito de vitórias somente, Lanterne Rouge, um livro de Max Leonard, relata as vivências e derrotas dos lanternas vermelhas na prova francesa. Um desporto que dá atenção aos vencedores, mas também aos vencidos, muitas vezes, como já escrevi, responsáveis pelas vitórias dos líderes de equipa. 

E o doping? "Eles são todos drogados.", dizem-me amiúde. Lembro-me de ver, admirado, Armstrong a subir montanhas como se de uma descida se tratasse. Passo ao lado, claro que a realidade é muitas vezes negra, muitos correram ao longo das décadas dopados, mas não querendo enterrar a cabeça na areia, é algo a que não dou importância, já li um ou dois livros que tratam especificamente sobre essa questão, mas parece-me pornografia. Tratam do assunto, mas encontram em Lance Armstrong o bode expiatório, chafurdam nele e ignoram o estado calamitoso do desporto nessas épocas. 
Vou confiando, quiçá infantilmente, nas medidas anti-doping e deliciando-me com a competição ao longo do ano. As provas de um dia, de três ou cinco, as grandes provas de três semanas, as provas específicas, como o Paris-Roubaix - o inferno do norte deliciam-me, a mim que não consigo andar em cima de uma bicicleta sem a espatifar ou quebrar alguns ossos. 
Um paradoxo, este, semelhante ao de tantos que se sentam num sofá ou cadeira de café, a ver 22 tipos atrás de um bola, admirados com as fintas e os golos, sem conseguirem correr cinco minutos, fazer uma trivela ou dar 3 toques consecutivos numa bola.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Rua da amargura


Andamos por aqui e por ali,

sem saber bem porquê.
Somos levados pela melancolia,
pelo desespero,
toldados pela tristeza.
Encontraste-me ali,
quieto e só,
parado e cinzento.
Talvez tenhas pulado, falado muito,
talvez,
talvez tenhas dançado, gritado,
talvez,
mas foi o teu sorriso que me fez sair
da rua da amargura.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Tu és louvado
Ontem, hoje e
Eternamente.
Tu és louvado
Pela tua criação.
Tu és louvado
Por um povo por
Ti criado. Tu és
Louvado ontem,
Hoje e eternamente.

Porque ouviste
Dos altos céus
O clamor perdido,
Enviaste Cristo
Para libertar
O condenado.

Tu és louvado
Ontem, hoje e
Eternamente.
Tu és louvado
Pelos libertos.
Tu és louvado,
Por um povo por
Ti resgatado,
Ontem, hoje e
Eternamente.

Baseado nos v.18-22 do Salmo 102

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Cinzas do Norte

Não há livros iguais e atrevo-me a dizer que não há leituras iguais. Há autores que leio mais pela escrita do que pela história narrada, o estilo e o domínio da palavra valem mais do que outra coisa (Baptista-Bastos, Ruben A. - por exemplo). Há leituras que são sôfregas, outras que demoram. Há leituras que me esgotam, outras que parecem uma barra energética. Enfim, paremos com comparações tolas, não há uma forma de se efectuar a leitura em nós. Essa é a sua beleza.
O outro livro que me trouxeram do Brasil foi Cinzas do Norte, de Milton Hatoum. E a experiência não podia ser mais diferente da de Que fim levou Juliana Klein?
Se o romance de Marcos Peres me cativou pela energia da linguagem, pela estrutura desestruturada (pelos aspectos pós-modernistas, internos e externos), pelo jogo constante entre livro e leitor, a obra de Milton Hatoum obrigou-me a mudar de agulhas, uma estrutura mais clássica, um outro ritmo.



Cinzas do Norte, terceiro romance de Milton Hatoum, passa-se, em grande medida, na zona de Manaus, no pós-guerra. (Rai)Mundo é um jovem rico, em revolta contra o pai, Trajano Mattoso. Acompanhamos a amizade de Mundo com (O)lavo, órfão que vive com os tios. Mundo quer ser artista, contra a vontade do pai, numa família de conveniência. É um "dramalhão" familiar e social. 
É um romance sobre relacionamentos e as consequências deles, sobre o papel da arte e da economia na arte; é um romance "histórico", retratando a história de Manaus (e consequentemente do Brasil) nos anos 60 e 70 do século passado, um romance da desilusão da vida, da precariedade desta.

Mundo é um jovem que tem tudo, mas que quer a arte como vida, Lavo é um jovem que nada tem e alcança o sucesso nos estudos. A amizade entre os dois desnuda as relações entre os diversos membros das suas duas famílias, relacionamentos marcados pela posição social, pela força do dinheiro e do amor, pelas escolhas, passadas e presentes. A narrativa principal é ampliada por cartas do tio de Lavo (Ran) a Mundo e por uma última carta que Mundo deixa a Lavo.

A força principal do romance é a descrição dorida das famílias, um retrato cru e amargo. 
De um lado a família de Mundo. Trajano Mattoso, um latinfundiário amazónico, constrói o seu império baseado na exportação de juta e na exploração humana, expiadas pelos presentes esporádicos que dá aos que trabalham na sua propriedade. Autoritário, herdeiro de uma lógica de trabalho única e enriquecimento, quer fazer do filho um retrato de si e do seu pai, não aceita divergências no trilho por ele idealizado. Para Trajano, as amizades políticas, as conquistas sexuais, o conhecimento da economia e do negócio familiar são o que requer do seu filho, por isso não compreende a revolta do herdeiro e não consegue lidar com ela de uma forma que não seja autoritária e violenta. Mundo sonha ser artista e assistimos ao longo do romance à sua luta e revolta contra um pai que não compreende e contra um estilo de vida a que tenta fugir e que usa para fugir. Alícia parece odiar o marido de uma forma patológica, presa num casamento sem amor por amor ao filho e ao estilo de vida que o primeiro lhe proporciona. 
Do outro, a família de Lavo, futuro advogado, melhor amigo de Mundo, narrador do livro. Órfão, vive com Raimunda, sua tia, que sustenta a casa (Lavo, o tio Ranulfo e os amigos bêbedos deste) como costureira. Ran(ulfo) não tem um trabalho fixo, a menos que encaremos a vida indolente como o seu emprego, vida marcada por biscates, mulheres e bebida, que tem encontros amorosos com Alícia, relacionamento iniciado antes do casamento desta com Trajano.

Cinzas do Norte é um livro sobre miséria, sobre a miséria económica e social (mesmo no meio da riqueza), política, familiar, em última instância, humana. É um livro triste por isso, mas ao mesmo tempo belo. O vazio em que as personagens se encontram ou colocam parece definido, há pouca capacidade para fugir a esse destino, as tentativas sucedem-se, mas parece que as escolhas só confirmam o triste fado delas. Em última instância, não é o sangue que aproxima as personagens de Cinzas do Norte, elas vão se afastando afectiva, mas também geograficamente. 
Se o retrato da vida familiar é cru, não menos realista e acre é o retrato da vida política e social dessa Manaus retratada e do Brasil em última instância, os jogos de poder, a destruição do património natural e histórico em virtude do "desenvolvimento".

Concluindo, se no livro de Marcos Peres o título é uma pergunta e de algum modo o mote/convite para o leitor o ler, o título deste livro de Hatoum funciona como uma  leitura final e poética (quase um epitáfio) do mesmo. 
Altamente recomendável, editado em Portugal pela Cotovia. Eu li na edição brasileira da Companhia das Letras.