segunda-feira, 9 de março de 2020

Chico Bento - Arvorada é mais um excelente título de Graphic MSP. 

Arvorada segue o relacionamento do caipira Chico Bento com a sua Avó Dita, Orlandeli cria uma trama em que mostra a importância dos laços familiares, da forma como somos moldados e educados pelos que mais amamos.


O livro começa com a Avó Dita a chamar Chico para ver um ipê amarelo em flor, mas Chico troca a visão da árvore por um bolo quente. 

No dia seguinte, as flores caíram e o momento fugiu. A Avó explica-lhe que precisamos de parar para apreciar a beleza do que nos rodeia enquanto podemos. Num livro em que a vida do campo impera, há pequenos momentos para enxergar a beleza, da pesca ao saborear uma laranja, de nadar pelado no rio ou riacho a apanhar goiabas, mas Orlandeli não nos deixa ignorar os relacionamentos familiares e amizades de Chico Bento.



Arvorada lida com a morte ou com a presença desta, com o papel da avó como construtora ou co-construtora da personalidade de Chico, a forma como a família nos ensina, molda e educa. Arvorada é sobre a importância de pararmos e vermos a beleza na natureza, mas também sobre a importância de amarmos os que nos amam e rodeiam, de passarmos tempo com eles. 


A simplicidade da vida no campo, o valor das amizades, o medo de perder um ente querido, o amor e a dor, a vida e a morte, tudo é embrulhado numa arte que une o bucólico e o mitológico. Uma singela mas bela história de Chico Belo.














Jeremias - Pele

Graphic MSP é um selo da Editora Maurício de Sousa, publicado pela Panini. A ideia é editar Graphic Novels com personagens da Turma da Mônica para um público jovem-adulto. 



Jeremias de Rafael Calça e Jefferson Costa aborda a questão do racismo. 
Jeremias é uma criança que adora uma banda-desenhada específica, o Guardião da Noite, e sonha ser astronauta. 

O livro apresenta-nos um Jeremias feliz, no cinema e em casa, num relacionamento cúmplice com os pais, é na escola, quando a professora decide pedir aos alunos que vistam a pele de um profissional e escrevam uma redacção sobre o tema, que os problemas começam. Apesar de negro, Jeremias é um bom aluno, e escrevi apesar propositadamente, porque a professora não vê Jeremias, a sua inteligência, capacidade ou individualidade, a cor de Jeremias impede-a, alguns colegas ligam infundadamente o sucesso de Jeremias ao copianço. A professora distribui as profissões pelos alunos e Jeremias fica com a de pedreiro. É neste contexto que Jeremias vai confrontar-se com a diferença com que alguns o tratam, a cor leva a um tratamento distinto, a uma expectativa negativa. Mais à frente, o pai vai-lhe dizer que porque é negro terá de se esforçar mais, terá de ter mais cuidado no que diz, terá de ser duplamente paciente, duplamente esperto, terá de criar uma casca.


Jeremias - Pele é uma obra maravilhosa pela forma directa mas também terna (relativamente ao tratamento das personagens principais) como relata o racismo em diversas ocasiões,  a moça que não se senta no autocarro porque o único lugar vazio é ao lado de Jeremias, o pai de Jeremias que é mandado parar pela polícia só porque é preto; a reacção do pai, tentando explicar ao filho como reagir, mas que falha no tom ao reviver a sua experiência. O traço de Jefferson Costa traduz os sentimentos das personagens (a confusão, a ira, a estranheza, a decepção, a tristeza, a abnegação) de forma única e competente.


Há uma imagem que me fica, entre tantas, Jeremias a olhar para o lápis e caderno, que percebemos serem materiais que lhe são queridos, e o desenho mostra-os com um tamanho maior do que o normal, o que lhe é pedido pesa na criança que é e transtorna as suas paixões. Quantas vezes isto acontece na escola? 

Jeremias é instado pelo pai a criar uma casca, a banda desenhada mostra a importância da pele em contraste com a casca; a vergonha, a confusão, o medo, a coragem, o orgulho de Jeremias mostram como a pele é mais dorida e corajosa que a casca; Jeremias quer ser quem é apesar da visão que outros tenham da sua pele, é um caminho longo e doloroso, mas ele está disposto a lutar por isso!
Jeremias - Pele é uma obra genial pela forma como agarra o racismo pelos cornos, usando exemplos vividos próprios autores, Pele é realista, experiencial e o tom que adopta é fulcral no sucesso da história, a BD é usada em toda a sua força, com argumento e arte incisivos numa sinergia única.

Altamente recomendado.













segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Dersu Uzala


Um filme russo escrito e realizado por um japonês? Após um falhanço comercial (Dodeskaden) no seu Japão natal e das dificuldades consequentes em financiar os seus próximos projectos, que o levou quase ao suicídio, Kurosawa vai filmar Dersu Uzala à União Soviética, com promessas de total liberdade para o fazer.
O resultado é uma obra-prima, vencedora do Óscar para Melhor Filme Estrangeiro em 1976.



O filme é a adaptação de um livro de aventuras biográfico, que Kurosawa leu em adolescente e que tentava adaptar há anos, conta a história da amizade do capitão Vladimir Arseneiev, explorador nas regiões da Sibéria, com Dersu Uzala, um mongol, habitante da estepe. Um representante do mundo moderno aprende, surpreende-se, é discipulado por um velho que vive na e da natureza. O relacionamento entre os dois é o relacionamento entre mestre e discípulo, uma lição “ecológica” e humanista, Arseneiev aprende o estilo de vida de Dersu, que vive do que a natureza lhe dá, que a respeita, que fala com os seus elementos, os soldados riem quando o velho mongol fala com o fogo, o vento ou com o tigre, tudo na natureza é um ser com quem se pode dialogar. Mas um homem que mais do que modificar a natureza pelas suas necessidades, a usa em equilíbrio, e a sabe ler, Dersu vai ser importante para o grupo de homens ao saber quando o nevoeiro se levanta ou quando a chuva pára, um ser que vive à mercê da natureza sabe lê-la para sobreviver, não é apanhado desprevenido. O respeito pelo próximo está presente, por exemplo, na cena em que fabricam uma casa para se abrigarem, mas que deixam para outros, Dersu faz questão de deixar sal, comida e fósforos para o “outro” que por ali possa passar.
Kurosawa filma a estepe, a paisagem agreste e natural como ninguém, a cena em que os dois se perdem e são apanhados pela noite e pelo vento frio e em que rapidamente criam um abrigo é paradigmática, com a luz natural a desaparecer, mas continuamos no jogo de sombras e luz presente em todo o filme. Kurosawa filma os elementos naturais como ninguém, é comum na sua filmografia a presença destes na narrativa, não como algo que acontece, mas como movimentos narrativos, aqui não foge à regra.


Kurosawa filma as aventuras debaixo da ideia de que há um mundo a desaparecer, mais do que o mundo natural, é o mundo daquelas pessoas, o mundo interior, humano, social, animista que desaparece.
O filme termina com a morte de Dersu, incapaz de viver fechado em quatro paredes, incapaz de se adaptar à ausência da natureza numa grande cidade, Dersu sucumbe à ganância humana.
Poucas vezes se filmou a amizade desta forma, por agora, o meu filme favorito de Kurosawa, deixando Os Sete Samurais em segundo lugar!




terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

The Third Man

Li O Terceiro Homem de Graham Greene há mais de 20 anos, não sei se o sentimento que me deixou (acho-o mediano e o final expectável) foi resultado da qualidade do mesmo ou de desilusão ao lê-lo após O Fim da Aventura (esse sim foi uma revelação).
Acho que já vi parte do filme posteriormente, mas sem grande atenção, a atenção que merece.

Na Viena pós Segunda Guerra Mundial, Martins tenta descobrir a verdade sobre a morte de Harry Lime, com quem se ia encontrar, tentando descobrir quem é, se é que há, o terceiro homem na cena do crime de que ouviu falar.
O que me interessa menos em O Terceiro Homem é a trama, o que não quer dizer que esta não esteja bem urdida, que o mistério que se desvela seja essencialmente uma história de ambivalente moralidade, por parte de todos os protagonistas. Anna ama Lime apesar da sua natureza e práticas, Martins cai por Anna apesar dos sentimentos desta por Lime, e Lime está morto e nunca amou ninguém senão ele mesmo.
O que realmente me cativou foi a ambiência, a profundidade do preto e branco, a banda sonora (Anton Karas), o negro e as luzes, os planos citadinos e subterrâneos, as sombras, as vozes, o gato, o belíssimo plano final, sem palavras, em que Anna caminha na direcção de Martins.
E não, não vou, como a esposa pressagiou, demorar muito mais tempo a escrever sobre esta obra de Carol Reed. Se me parece que o filme conta a história do livro homónimo, conta-a de forma superior àquela que me lembro de ter lido e isso é culpa do realizador. O estilo, a cromática, a música, a ambiência tudo isso faz de O Terceiro Homem um grande clássico. E depois há as cenas icónicas, a cena final, a fuga final, e outras mais que não descrevo para não tirar prazer a quem veja o filme pela primeira vez.
Há quem lhe tenha chamado o melhor filme britânico de sempre. Vejam-no e tirem teimas.



Blackkklansman de Spike Lee


Blackkklansman de Spike Lee conta a história de Ron Stallworth (John David Washington), o primeiro polícia negro de Colorado Springs, que consegue "infiltrar-se" no Klu Klux Klan, na década de 1970, sendo negro e havendo vontade da organização em conhecê-lo é o detective Flip Zimmerman (Adam Driver) que toma o seu lugar, mantendo-se Ron como a mente e voz por trás da infiltração. A voz é motivo para várias piadas ao longo do filme, porque os supremacistas acham que conseguem identificar um negro seja pela voz, seja pela forma de falar.
Spike Lee realiza um filme sui generis na forma como trata a história, há uma série de coisas habituais em filmes sobre racismo que Lee não faz, há um caminho que acaba por não percorrer e o filme não perde com isso, pelo contrário. O que quero dizer com isto?
Ao terminar o filme pensava em Mississipi Burning que revi há uns meses, filme sobre crimes raciais, em que o background de criminosos e polícias é escalpelizado, há uma atenção à descrição da maneira de pensar, da "racionalização" por trás do racismo na mente do racista, o Sul racista é-nos tanto apresentado como definido. Mesmo The Green Book parece-me mais formatado, tanto na escrita, como nos momentos de humor, é mais expectável. Ora, Spike Lee perde algum tempo com a descrição psicológica das personagens, maioritariamente através das imagens, cabe ao espectador defini-las, mas não perde tanto tempo com a explicação do acto, antes filma-o em diversas nuances, há o racismo para com negros, mas também contra judeus, há o racismo explícito, mas também o velado, há o racismo presente nas forças policiais, mais ou menos tolerado ou esperado, mas há a presença também de membros do KKK no Governo ou em outras diversas instituições. Lee parece querer equilibrar o retrato da luta contra o racismo dando mais tempo de antena à cultura e luta negras, há uma apresentação e discussão dos filmes de black explotation, há discussões acerca das diversas formas de luta possíveis...
Lee usa o cinema, bem como a história do cinema, para contar a sua história, e usa The Birth of a Nation para ilustrar o êxtase do racismo. O cinema vende, mas também doutrina, e aqui Lee parece querer mostrar que pode usar o cinema de forma aparentemente menos doutrinária e dar-nos um filme que escorregando para a comédia, lida com assuntos tão divertidos como violência policial, racismo, abuso de poder, e fá-lo de forma objectiva. Ao nos dar uma história dos anos 1970 e terminar com imagens de 2017, Lee parece dizer que a realidade pouco mudou, que os problemas raciais continuam na ordem do dia. Não precisamos neste sentido de ver o que já vimos vezes sem conta, não precisamos de ser doutrinados, precisamos somente de abrir os olhos, que pode ser assustador, e agir. Aliás, a vitória de Ron dura muito pouco tempo, as pressões são diametralmente opostas ao tamanho das vitórias, a cultura, o respeito pelo outro, as mudanças demoram tempo a consolidar-se. Farto de pregar isto, Lee dá-nos uma história que fica a ressoar.

(Ando para aqui a remoer um texto sobre o humor em dois filmes de guerra, Stalag 17 e The Great Escape, e é difícil fugir à discussão do papel do humor neste filme, de que forma o humor transforma o modo como recebemos o filme no seu todo? Sem humor este filme seria bastante diferente. Lee está a rir dos racistas? Está a dar-nos uma visão, humana e ainda assim optimista, da luta racial?)




segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Brevíssimas de Cinema

Tenho definitivamente um problema com Jordan Peele.
Não consegui ficar fã de Get Out por considerá-lo uma cópia de Skeleton Key, a ciência é trocada pela magia e o enfoque no racismo é mais vincado no filme de Peele, por isso, o final deixou-me um sabor acre na boca. O que me parecia original afinal revelou-se uma repescagem.
US parece-me um filme superior em tudo ao anterior, boas interpretações, uma banda sonora apelativa, sentido de humor negro, uma visão cáustica da contemporaneidade, o mistério e a estranheza da narrativa, mas o final quase que deita o filme abaixo, é preguiçoso, não faz sentido e, em vez de me surpreender, confirmou-me as dificuldades que tenho com Peele, aprofundadas com os três episódios de Twilight Zone que vi e que me levaram a rever os originais.
Peele faz da raça tema de filmes de terror, o que é salutar, e fá-lo de forma interessante, incomodando o espectador, fazendo-o duvidar da realidade que vê, mas a forma como termina as narrativas irrita-me, parecendo querer puxar um Shymalan a cada momento diminui a qualidade do que criou até aí.


Gostei menos de The Marriage Story do que esperava, o contexto e determinados aspectos narrativos pareceram-me demasiado americanos, explicito, o contexto legal e litigioso é demasiado americano e quase que se torna o centro do filme - tirem os advogados e digam-me com o que ficam. Adam Driver é majestoso na interpretação. Num filme de actores (Liotta e Dern estão excelentes, ainda que me pareça que as personagens são serão do mais complicado que tenham representado, e para ser mais divisor, Scarlett Johanson não me convenceu) ele brilha com fulgor. Não vejo Kramer contra Kramer desde a década de 90, mas parece-me um filme mais equilibrado, realista e objectivo acerca do divórcio. É capaz de ser fruto de anos e anos a ver Bergman, Allen e outros a escreverem e realizarem filmes superiores sobre divórcios e relacionamentos conjugais.

The Two Popes é também um filme de actores, mais entradotes, em que a interpretação, nomeadamente a de Hopkins, pode ser vista mais como envelhecimento do que como arte. O passado de Bergoglio é mais escalpelizado, o de Ratzinger fica-se pela crítica fácil da opinião pública. O gelo germânico e o à vontade sul-americano entram em choque, tanto nos costumes e hábitos, como na visão teológica e nos relacionamentos.
Num filme com tanto para me desinteressar, Two Popes surpreende pelo sentido de humor e definição psicológica das personagens. Um estudo sobre as diferenças entre estes dois homens. 
Um católico dos 7 costados poderá ter bastantes mais problemas com a narrativa do que eu!



segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Coisas que tenho feito/aprendido com o caso dos elevadores

- falei mais com os meus vizinhos durante estas duas semanas do que nos últimos anos;
- tenho tido oportunidade de, brevemente, falar daquilo em que acredito;
- o Trono da Graça está ocupado, há coisas que eu não posso fazer, como dizia um amigo, não te gastes com o que Deus não te chama a fazer, ou seja, não te desgastes com a mania de que és Deus. Deus é soberano, eu não.
- quão produto inacabado ainda sou, esta situação tem-me mostrado quanto em algumas áreas a minha fé e confiança ainda não é o que eu desejaria que fosse. Se depender da minha força e vontade não é grande fé, certo?
- a ansiedade corrói as estacas da confiança, consciente ou inconscientemente. Uma dos meus versos preferidos ajuda a manter a calma, A cada dia o seu mal. A ansiedade tende a integrar todas as possibilidades e semanas de um calendário num momento interminável vivido ao longo de dias...
- a minha mente tende a elencar planos, hipóteses, realidades paralelas, planos de vingança ou situações em que um dos actores poderia ter agido de forma diferente. Esta vida mental tende a ter um papel real no meu dia a dia, mas falso na resolução de problemas e na dependência divina.

Deus me ajude, em nome de Cristo e pelo Seu Espírito.