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terça-feira, 24 de março de 2020

Dark Clouds, Deep Mercy (III)

A terceira e última parte do livro, Viver com Lamento, tenta fazer algumas aplicações práticas, tanto pessoais (no que à leitura da Bíblia, ao pranto, ao aconselhamento, à confissão de pecados diz respeito) como comunitárias (em funerais, em orações congregacionais, na pregação e ensino, em pequenos grupos, nas questões raciais e na criação de cânticos espirituais).

"I now believe lamenting together is the church´s calling." p.176

Tendo em conta tudo o que já foi dito, Vroegop resume o lamento como uma linguagem para perda, uma solução para o silêncio, uma categoria para as queixas, uma estrutura centrada em Deus para "canalizar" os nossos sentimentos, um processo para a nossa dor e um caminho para a adoração.
Numa ideia, a prática do lamento prepara-nos para dificuldades futuras, já que nos leva por um caminho de restauração emocional e de crescimento espiritual. Como? Dando-nos uma linguagem mais profunda, uma empatia mais verdadeira e profunda com quem sofre, vivendo de forma prática a esperança escatológica que temos e a dependência no Deus soberano, poderoso e salvador em que acreditamos. O nosso louvor e adoração está cheio de vitória, mas afasta o lamento e as lutas por que passamos para segundo ou terceiro plano; sem querermos (e por vezes, conscientemente, também) ignoramos a linguagem presente nos salmos, e também a teologia associada, perdendo uma forma de aliviar e lutar contra as nossas provações e guerras espirituais. Somos mais do que vencedores em Cristo, claro, mas continuamos a passar por dificuldades, dor e espanto, quantas vezes tentamos (eu tento) passar estoicamente por essas situações sem perceber que estou a evitar exercitar e aprofundar a minha fé? 

"Lament helps us embrace two truths at the same time: hard is hard; hard is not bad" p.189

A frase batida do livro, que deixei para o fim, "chorar é humano, lamentar é cristão". Confiar em Deus não está em oposição à tristeza profunda, os cristãos lamentam expectativamente, acreditam que a morte e ressurreição de Jesus inaugurou a derrota da morte e do pecado.

"You see, Christianity needs competent lamenters. The gospel empowers the followers of Jesus to enter the dark moments of people´s lives. Those who know the story of hope and who believe in God´s goodness can be conduits of his grace. Lament allows us to hear the brokeness around us, weep with those who weep, and walk with them on the long road of sorrow." p.194

(Estes pequenos textos valem o que valem, e não dispensam a leitura do livro. A leitura deste em Dezembro foi um autêntico bálsamo e fonte de benção Lendo inglês, aceitem a sugestão).



segunda-feira, 23 de março de 2020

Dark Clouds, Deep Mercy (II)

A segunda parte do livro intitula-se Aprender das Lamentações e o seu foco é o livro de Lamentações de Jeremias.

"God whispers to us in our pleasures, speaks in our conscience, but shouts in our pains: it is His megaphone to rouse a deaf world". 
C. S. Lewis

O lamento não é somente uma expressão de tristeza mas também um memorial, Lamentações mostra-nos uma tensão entre a presença da dor e a soberania de Deus.

Vroegop dá-nos 3 lições dos primeiros 2 capítulos de Lamentações:

1) o pecado é o problema real

O lamento interpreta todo o sofrimento través das lentes da compreensão bíblica do pecado, a realidade do pecado deve interpretar as nossas dores e sofrimentos.

2) o meu pecado e sofrimento não são os únicos problemas

"Our natural bias is to individualize suffering (...) I need to be reminded that my pain is not the only pain." p. 102

"More than just providing confort and help in our times of sorrow, the grace of lament helps tune our hearts to the pain of others and to the foundational truths about God and the World. We can lament on behalf of our culture, identifying with the brokeness around us. When leaders fall, scandals shock or unrighteousness reigns, we have a prayer language to embrace the disappointment of casting judgement." p.102

3) O lamento acorda a alma, aponta-nos para a perspectiva divina

O lamento é, em certo sentido, uma disciplina espiritual que pode acordar as nossas almas da apatia espiritual. 

O capítulo 3 de Lamentações tem como contexto a destruição de Jerusalém e convida-nos à confiança na soberania de Deus ainda assim. Em tempos de Covid-19, é importante não ignorarmos esta verdade, Deus é soberano, tanto na riqueza, como na pobreza, tanto na saúde como na pandemia.
Vroegop anima-nos, o lamento bíblico é transformativo porque não só dá voz à dor que sentimos, mas também porque ancora o nosso coração às verdades em que acreditamos. 

O lamento arrisca a esperança quando a vida é dura.

"Faith is a footbridge that you don´t know will hold you up over the chasm until you´re forced to walk out onto it" 
Nicholas Wolterstorff p.110

"Lamentations shows us that hope does not come from a change of circumstances. Rather, it comes from what you know to be true despite the situation in front of you. In other words, you live through suffering by what you believe, not by what you see or feel." p.110

"Lament can help you by reharsing the truth of the Bible to preach your heart, to interpret pain through the lens of God´s character and his ultimate mercy." p.111

O lamento é a oportunidade de expressarmos a tristeza e admiração que sentimos pelas dificuldades e situações tenebrosas porque passamos, ao mesmo tempo que ensaiamos as verdades em que acreditamos. É viver pela fé, mas também a fé que professamos!

De uma forma prática, Vroegop dá-nos 4 verdades que Jeremias nutriu no seu coração:

1) As misericórdias de Deus nunca acabam (3:22-24)

Mesmo no pior dos cenários, Deus é suficiente, mesmo no choro e miséria humana Deus não deixa de ser Deus!

2) Esperar não é em vão (3:25-27) 

Esperar no Senhor, biblicamente, é colocar a minha esperança Nele. Esperar é das coisas mais difíceis que podemos fazer porque na realidade não estamos a fazer nada, estamos à espera que Deus faça! Para quem, como eu, gosta de estar no controlo da sua vida, da sua casa, das suas finanças, esperar coloca-me num lugar desconfortável, porque afirma de forma prática que eu não sou o senhor da minha vida!

3) A palavra final ainda não foi proferida (3:31-32)

O sofrimento não é o fim, choramos por causa da dor e sofrimento, mas devemos olhar com expectativa para o que Deus ainda trará, esse também é um dos propósitos do sofrimento, olhar para o futuro redentor prometido por Deus.

4) Deus é sempre bom

Há um propósito amoroso, redentor, gracioso e misericordioso por trás de cada lágrima.
"Todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus".

O capítulo quatro da Lamentações ajuda-nos a ver quais são os nossos ídolos. O lamento funciona como um memorial à futilidade de confiar em algo ou alguém além do nosso Deus, trocando por miúdos, as dificuldades ajudam a revelar os nossos ídolos. 

"Sorrow comes from losing one good thing among others... Despair, however, is inconsolable, because it comes from losing an ultimate thing. When you lose the ultimate source of your meaning or hope, there are no alternative sources to turn to. It breaks your spirit."
Tim Keller p. 124

Em que é que eu coloco a minha segurança e confiança? A dor pode, para além de ser uma plataforma para a adoração, ser também uma forma de me levar ao crescimento espiritual e ao arrependimento. Vroegop faz uma lista de coisas em que tendemos a colocar a nossa confiança, da segurança financeira a pessoas, do desejo de conforto cultural (ignorando a miséria e pobreza à nossa volta) à presunção do favor divino (somos o povo de Deus, Deus estará sempre connosco, essa foi a desculpa do povo para ficar cego ao seu próprio pecado e à graça divina) passando pela tentação de fazermos dos nossos líderes espirituais ídolos. 
Tenho desenterrado os ídolos do meu coração? Tenho-me agarrado a eles? Que este seja um momento de refrigério espiritual e de identificação dos meus ídolos. 

Lamentações termina apontando para Deus, sem nos dar o final da história. Não sei se contigo, mas esse facto mexe comigo. O ponto para o autor é o de o lamento ser uma linguagem de reorientação espiritual, a questão é que o lamento não é um passo de mágica - lamenta e tudo será resolvido, não! O lamento não resolve todas as situações e problemas da minha vida, a resposta pode tardar, pode nem ser aquela que eu desejo, mas o lamento é a linguagem de oração para esta realidade.

A oração por restauração e renovação no final de Lamentações aponta para algo que só Deus pode fazer, mas também para a nossa maior necessidade, estarmos bem com Deus, ou seja, o lamento é a linguagem de quem conhece a história completa, o Evangelho.

(continua)
























domingo, 22 de março de 2020

Dark Clouds, Deep Mercy (I)

Os adeptos da teologia da prosperidade olham para a dor como um resultado da falta de fé, dizem eles que Deus não quer que soframos, se determinada pessoa está doente ela pode ser curada, se tal não acontece o problema está nela e não em Deus ou na pessoa que a tenta curar. De uma só vez ignoram todos os textos acerca de Moisés, David e Jesus, para dar somente três exemplos. A fé para estas pessoas é a moeda de transacção para a felicidade e riqueza, a santificação (sem a qual ninguém pode ver Deus) é trocada pela prosperidade material e monetária. Tive em tempos uma conversa com um destes líderes religiosos, que desconhecia a Bíblia de forma atroz, que ignorava na prática o que significa exegese e que usava cada versículo como uma plataforma para uma oratória de cinco tostões ("palavras de poder" no seu entender) que contradizia vez após vez a mensagem bíblica - o importante não era a salvação, mas a sua satisfação material.

Ninguém no seu perfeito juízo quer sofrer, mas qual é o papel da dor e do sofrimento nas páginas das Escrituras? Mark Vroegop escreveu um excelente livro, Dark Clouds, Deep Mercy - Discovering the Grace of Lament, sobre isso e especificamente sobre o papel do lamento e das lamentações na vida dos crentes.

De uma forma geral, Vroegop descreve o lamento como o acto de levar as nossas tristezas e dores a Deus enquanto processamos essas mesmas dores, é sofrer coram Deo, é lamentar, chorar, admirar-se com o que aconteceu/acontece perante Deus, colocando esses assuntos aos Seus pés. Neste sentido, lamentar é unicamente Cristão.

"The practice of lament - the kind that is biblical, honest, and redemptive - is not natural for us, because every lament is a prayer. A statement of faith. Lament is the honest cry of a hurting heart wrestling with the paradox of pain and the promise of God´s goodness." p.26

O livro de Vroegop foi extremamente importante para mim, em situações que abanaram a minha fé e equilíbrio espiritual, leiam os textos acerca dos elevadores, neste mesmo blog e terão uma ideia. Há coisas que sabemos teoricamente e pensamos que nenhuma situação nos abalará, falava com um amigo acerca de uma verdade simples, aquilo que o pode derrubar não é o que me derrubará obrigatoriamente, quantas vezes olho para as circunstâncias de alguns irmãos e não percebo o que os atormenta tanto, porque determinadas áreas podem ser aquelas em que sou mais forte, e quantas vezes o contrário pode acontecer? Também aqui preciso de maior empatia para chorar com os que choram e rir com os que riem.

O lamento é então a oração na dor e em dor que leva à confiança em Deus, o lamento coloca questões como "onde estás, Deus?" e "se me amas, se estás aqui, porque deixas isto acontecer?"
O lamento é o percurso da dor à adoração e louvor.
A primeira parte do livro usa Salmos de Lamento (1/3 do saltério é composto por Salmos de Lamento) e intitula-se Aprender a Lamentar, de forma prática o autor divide o lamento em quatro acções:

1) dirige-te a Deus (Salmo 77)

Para um cristão a existência de Deus parece ser a verdade mais básica em que acredita, mas quantas vezes é que na dor e provações agimos como ateus? É nestas circunstâncias adversas que orar, falar com Deus parece ser um exercício impossível. Clamar a Deus no sofrimento é reconhecer a sua existência, ficar em silêncio perante Deus quando se sofre, i.e., ignorar a sua presença e poder, é a maior prova de descrença. O desespero vive da ideia que Deus não se preocupa, não ouve. 
O lamento direciona as nossas emoções, a nossa dor, as nossas questões e dúvidas a Deus, em vez de nos fecharmos em nós e nos mortificarmos em dor e pecado.

É preciso fé para vocalizar essa dor, esse espanto, as dúvidas pelas quais passamos.

"The biblical language of lament is able to redirect weeping people to what is true despite the valley they are walking through." p.36

O primeiro passo então é orar, que a minha acção seja linguagem em oração. Deus está presente.

2) traz as tuas queixas a Deus (Salmo 10)

O segundo passo é trazer as nossas queixas a Deus, Vroegop escreve que a piedade não é uma forma de estoicismo, sem queixa não há lamento, o sofrimento traz naturalmente ira, negação, desespero, amargura; perante aquilo em que acreditamos acerca de Deus e do Seu poder a alternativa é trazer as nossas queixas, as nossas dúvidas em oração.
Parafraseando o autor, o lamento é a linguagem de um povo que acredita na soberania de Deus mas vive num mundo de tragédias. Quão importante será nas actuais circunstâncias não perder isto de vista?

Por isso é importante trazer as nossas questões perante Deus - mesmo ou principalmente quando Deus parece distante - não é usual pensar ou achar que Deus parece esconder-se quando sofro? Desta forma as nossas questões devem lidar com o como é que (13:1-2; 35:17; 74:10; 94:3) e por que é que estas coisas acontecem (Salmo 22:1; 44:23-24; 80:12)?

Vroegop é assertivo, Deus não somente ouve, como lida com as nossas dores, medos, ira e desilusão, a nossa frustração e queixas são uma oportunidade de nos achegarmos a Deus e não de nos afastarmos Dele.

"I found that pain made me myopic. It tended to narrow my focus on the sorrow that took over my life. Nothing else mattered (...) With this desperation for relief, it was easy to become preoccupied with the weight of sorrow, the unfairness of life, or the fear of never being happy again. Left unchecked, this could create a self-focused emotional spiral. But as I wrote out my complaints and talked to the Lord about them, it was surprising how they lost their hold on me." p. 51

O lamento ensina-nos a pedir e confiar, a olhar para a queixa como um caminho para reorientar o meu pensamento e sentimentos; perceber que há uma forma correcta de nos queixarmos é importante,  como importante é fazê-lo com humildade, a forma  mais simples e segura de o fazer é orar a Bíblia, orar as queixas e dúvidas de servos de Deus e reconhecer que Jesus conhece as minhas dores e dificuldades (Hebreus 4:15). A queixa é um caminho para me aproximar de Deus.

3) pede a Deus com confiança (Salmo 22)

O terceiro ponto é para mim um ponto importante, confio em Deus, mas por isso às vezes oro com algum distanciamento, porque coloco as coisas nas suas mãos, sem exercitar muito a minha fé. É um paradoxo, eu sei, mas sou uma criatura de paradoxos. Assim, a petição feita a Deus deve ter como base o Seu carácter e as suas acções passadas, como Deus é e o que Deus fez no passado compele-nos a fazer pedidos corajosos, ou seja, os pedidos são feitos com base em quem Ele é e no que Ele prometeu.

"Yet means that I choose to keep asking God for help, to cry out to him for my needs, even when the pain of life is raw(...) Part of the grace of lament is the way it invites us to pray boldly even when we are bruised badly." p.59

O desespero da dor, em conjunto com o conhecimento do carácter de Deus, leva a pedidos corajosos, a verdade é que oramos de forma diferente quando passamos pela dor e estamos desesperados. 

"It shines a spotlight on our powerlessness to control everything." p.60

Vroegop deixa 9 tipos de pedidos para nos ajudar a compreender melhor este ponto.

1) Levanta-te, ó Deus (Sl. 3, 7, 9, 10, 17, 74, 94);
2) Ajuda-nos, Senhor (Sl. 60:11-12);
3) Lembra-te da tua Aliança (Sl. 25:6);
4) Que a justiça seja feita (Sl. 83:16-18);
5) Não te lembres dos nossos pecados (Sl. 51; 79:8-9);
6) Restaura-nos (Sl. 80:3);
7) Não fiques em Silêncio, ouve-me (Sl. 28:1-27; 86:6);
8) Ensina-me (Sl. 143:10; 90:12; 86:11);
9) Vinga-me (Sl. 35:23-24; I Pd. 2:23).

"Lament is an expansive prayer language". p.65

4) confia e louva a Deus (Salmo 13)
Finalmente, o último ponto.

"Suffering refines what we trust and how we talk about it." p.71

A dor pode tornar-se uma plataforma para a adoração, o sofrimento pode levar-nos à confiança. O sofrimento deve-nos levar à confiança permanente, a evitar a passividade espiritual.

O salmo 13 mostra lamentações de David baseadas no carácter de Deus, o "mas" mostra isso. A confiança não depende das circunstâncias.

"Learning to lament is a journey as we discover how lament can provide mercy when dark clouds loom. It is how we learn to sing and worship when suffering comes our way." p.84

O caminho do lamento não é feito na nossa força, é feito na dependência de Deus, no aprofundar do conhecimento Dele e da confiança Nele. Que nos maus momentos aprofundemos o nosso relacionamento com Deus orando, trazendo as nossas dúvidas e dificuldades aos seus pés para que a nossa fé e confiança aumentem à medida que saboreamos mais da Sua graça e misericórdia.



segunda-feira, 29 de julho de 2019

The Power of Christian Contentment


The Power of Christian Contentment – Finding Deeper, Richer Christ-Centered Joy de Andrew Davis tem como base The Rare Jewel of Christian Contentment de Jeremiah Burroughs e versa sobre contentamento/satisfação. 

O livro está dividido em quatro partes: 
1)      o segredo do contentamento;
2)      como encontrar contentamento;
3)      o valor do contentamento;

4)      mantendo o contentamento.

Antes, durante e depois da leitura do livro houve um corinho que me veio à mente diversas vezes, apesar de sentir que o conteúdo do livro é mais profundo do que as quatro estrofes relembradas. 

Satisfação é ter a Cristo
Não há melhor prazer já visto
Sou de Jesus e agora eu sinto
Satisfação sem fim

Satisfação é nova vida
Eu com Jesus em alegria
Sempre cantando a melodia
Satisfação sem fim

Sim, paz real
Sim, gozo na aflição
Achei o segredo
É Cristo no coração

Satisfação é não ter medo
Pois meu Jesus, virá bem cedo
Logo, em glória, eu hei de vê-lo
Satisfação sem fim

Sendo um livro que tem como base uma obra puritana, o autor apresenta diversas listas ou pontos práticos para "levar a água ao nosso moinho", à semelhança dos puritanos o objectivo é não só apresentar algumas doutrinas, mas também mostrar o aspecto prático delas e a forma como as posso colocar em prática diariamente, i.e., da mente (compreensão) ao coração (afeições) e deste para a acção.

Na primeira parte, o autor defende que o mundo é marcado pelo descontentamento (as pessoas nunca estão verdadeiramente satisfeitas) e que o plano divino para os Cristãos passa muitas vezes pela existência de provações e por contentamento em Deus nestas ou apesar destas.

“Yet despite the value of this rich, full, continual contentment, and despite the fact that it is possible for every Christian in the world to experience it, this exquisite jewel is rare in our own lives. And how desperately the unsaved world needs Cristians to discover it.” p.14
Davis vai mais fundo, se o descontentamento de descrentes não surpreenderá cristãos, “the great tragedy is that so often we don´t really seem to live much differently. Many Christians hardly ever experience the daily foretaste of heaven that the Holy Spirit lives within us provide.” p.15

"Many Christians have such discontent lives that they are never asked by any of the similarly discontent unbelievers surrounding them to give a reason for the hope that they have (I Pd. 3:15), because they don´t evidently have any hope.” p.16

Acusei a pancada, lembrei-me de amigos descrentes em acampamentos estranharem alguns dos paradoxos cristãos, gozando com eles ou demonstrando estranheza por aceitarmos determinadas lógicas. 
Que diga o fraco forte sou
Diga o pobre rico estou
Por aquilo que Ele fez por nós.
Perceber que alguns notam esta pseudo-esquizofrenia nos que acreditam em Deus esbarra de frente com a acusação do autor de que não estaremos a viver uma vida satisfeita, antes pelo contrário, a vida de alguns de nós é pouco diferente da daqueles que não foram salvos por Cristo. Que frutos tem dado a minha vida, não deveria colocar o adjectivo à frente, mas lá vai, cristã? Encontro verdadeira satisfação em Cristo, ou cantarolo somente as mesmas linhas do cântico acima referido? Posso convencer alguém somente com base no que acredito, sem o praticar?

O que é, então, contentamento?
A definição, baseada em Burroughs, é a de encontrar prazer no plano sábio de Deus para a minha vida e humildemente deixar que Ele me dirija nela, de modo que Deus seja glorificado diariamente na minha vida, para que eu seja mais alegre e fonte de salvação para outros através do contentamento mostrado. Estes são dois dos pontos mais repetidos (e relevantes para mim) ao longo o livro, contentamento tem tudo a ver com providência e uma vida satisfeita (o contentamento cristão) serve de exemplo para os que estão à minha volta. 

O segundo capítulo foca o ensino de Paulo acerca do contentamento, nomeadamente com base em Filipenses 2: 12-16.
“As despairing lost people look on and see a buoyant peace and joy that is not based on favorable earthly circumstances but rather on faith in Christ, they will ask “you for a reason for the hope that is in you” (I Pd3:15). That hope shines most brilliantly when earthly circumstances are darkest, and the rare jewel of Christian contentment is a radiant source of that light.” p.25

“He who has God and everything else has no more than he who has God alone.”
 C.S. Lewis
“If we embrace that we have within our relationship with Christ everything we need for peace and joy at every single moment of our brief span here on earth, imagine how free we would be, in all our relationships, from self-giving clinginess or desperation.” p.33
 O meu relacionamento com Cristo é vivo e satisfatório no sentido de me contentar? Já passei da compreensão da verdade para a transformação das minhas afeições e para a prática e acção?

Na segunda parte, a definição de contentamento cristão é aprofundada, este é uma obra da salvação contínua pela graça através da fé, “é um milagre da graça soberana agindo com uma alma regenerada. Deus terá a  glória, nós a alegria.” p. 45
Davis explica ponto a ponto a definição de Burroughs,

“Christian Contentment is that sweet, inward, quiet, gracious frame of spirit which freely submits to and delights in God´s wise and fatherly disposal in every condition.”


Assim, o contentamento é uma atitude/disposição/mentalidade não amarga, não rebelde, trabalhada sobrenaturalmente pelo Espírito Santo em nós; que descansa na soberania e providência de Deus para connosco; que se submete de livre vontade. No entanto, vez após vez há o aviso de que o cristão deve ter um sentido apropriado de aflição e que deve colocar perante Deus as suas provações e aflições (I Pd.5:7; Sl. 10:1). O Cristão não é um estóico, a Bíblia dá-nos exemplos suficientes de orações a pedir libertação das provações para que o possamos e devamos fazer. 
Duas ideias importantes, o contentamento cristão é encontrar prazer no plano sábio de Deus para a minha vida e é importante compreender a união entre contentamento e providência. Ou seja Deus reina sobre todas as ocorrências de forma a salvar e santificar almas, isso faz com que eu procure encontrar, ou pelos menos perceber que existe, um propósito sábio e amoroso em tudo o que me acontece. Contentamento é compreender que Deus é soberano, que nenhum dos Seus planos é frustrado, que todas as coisas contribuem para o bem daqueles que O amam, se Deus não joga dados com o universo, então Ele está no controlo da coisa e esse controlo tem em vista um povo resgatado e a Sua glória.

7 aspectos da mentalidade satisfeita
1) A satisfação do cristão nas piores circunstâncias anda de mãos dadas com uma necessária insatisfação com o mundo;
2) A aritmética divina consiste em tornar-nos satisfeitos em Cristo subtraindo dos nossos desejos (I Tim. 6:10, Sl. 37:4);
3)   Reconhecer o castigo justo que o nosso pecado merece;
4)  O contentamento em toda e qualquer circunstância é aprendido na escola do sofrimento. II Cor. 11:23-28;
5)  Agir no aqui e agora, se Deus me colocou num determinado tempo e espaço é neles que devo agir (Mt. 5:14-16; Ef. 2:10);
6)   Somos criaturas divididas: novas criaturas (II Cor. 5:17), mas o pecado ainda mora em nós (Rom. 7:17, 21-24; Gal. 5:17), isso faz com que a mortificação do pecado seja uma necessidade;
7)   Viver a vida que é um sopro esperando a eternidade com Cristo.

Depois de Paulo, Davis foca-se em Cristo como nosso exemplo de contentamento. Jesus ensina-nos contentamento pelo Seu exemplo (Fil. 2:6-7; II Cor. 5:21; Is. 53:5); pela forma como depende de Deus, como cumpriu o plano de Deus e tudo faz para a glória do Pai; pela Sua expiação; pela Sua ressurreição.

Se Cristo ministra contentamento pela Sua morte quanto mais pela Sua ressurreição? Se Jesus morto na cruz é um meio interminável de paz e alegria em quaisquer circunstâncias, quanto mais poder tem um Cristo vivo no céu para ministrar contentamento à Sua igreja em guerra?

Na parte três, é abordado o valor do contentamento.
O contentamento permite uma adoração mais excelente (Is. 43:6-7; Ef. 1:5-6).
  "In active obedience, we worship God by doing what pleases God, but by passive obedience we worship God by being pleased with what God does." Jeremiah Burroughs 
O contentamento redunda também numa compreensão mais profunda da vida cristã e de quem Deus é, a exaltação da total maturidade cristã vem após uma vida de humilhação quieta debaixo da sábia e paternal mão de Deus. Burroughs escolhe explicitar o carácter paternal de Deus em vez de o real, para que o seu leitor perceba que o Soberano do Universo estabeleceu uma relação filial com ele. 
O contentamento faz-nos mais difíceis de ser tentados – descontentamento é um estado de mente instável, incansável, nervoso. Pessoas satisfeitas estão debaixo da mão de Deus, satisfeitas com as bençãos simples que Deus lhes tem dado. I Tim. 6:8

Nesta terceira parte também há lugar para meditar acerca da murmuração e do queixume, Burroughs escreveu que “há maior mal no hábito da murmuração do que aquele que percebemos haver.” p.109
A queixa é o contrário da adoração e louvor (I Pd. 2:9 e Tiago 3:10), queixa essa que revela a corrupção das nossas almas.
Burroughs continua, “As contentment reveals much grace in the soul, strong grace, beautiful grace, so murmuring reveals much corruption, strong corruption, vile corruptions in your heart.” p.111
Davis conclui que para a alma é pior a murmuração do que qualquer aflição, não há algo como uma pequena murmuração, o seu resultado já é mau o suficiente. Murmuração é rebeldia, é algo contrário à piedade. 
     Deste modo, a murmuração é definida como sendo oposta à obra da conversão operada pelo Espírito Santo. Deste modo, se a conversão revela a grandeza do meu pecado, bem como a grandeza de Cristo; se recusa os prazeres deste mundo por Cristo e mostra a necessidade de me entregar totalmente a Cristo;  o murmúrio esquece a grandeza dos meus pecados; o quão majestoso e glorioso Cristo é, especialmente enquanto Salvador; o murmúrio esquece que nos entregamos totalmente a Cristo como nossa fonte de alegria; que nos submetemos a Ele como Rei.
      Como já referi, Davis coloca muitas vezes a questão como uma questão de testemunho, aqui não foge à regra.
God has put us on display in front of everyone we know, but specially our spouse and our children. We can make life bitter for the person we embraced on our wedding day and strongly tempt that loving soul to discontentment as well. Not only that, but if you have children, think of them. They have been watching your example for years, quietly drinking in how to react to "any and every circumstance". When you complain, you are training them to follow your bad example. p.119

Se formos amargos e queixosos, por que é que alguém quereria ser como nós, pediria ou perguntaria a razão da esperança que há em nós? Mais fundo, que exemplo de satisfação tenho sido em casa, com os que me conhecem melhor?
Esta terceira parte termina com a análise do contentamento quer no sofrimento, quer na prosperidade.

A quarta parte do livro é sobre guardar o contentamento.
Ao concluir o livro, o autor repete uma última vez a ideia de que estar satisfeito não é o mesmo que ser complacente e que as disciplinas espirituais podem ser importantes na tarefa de ficar e continuar a ser satisfeito.
Neste caso, é importante o papel diário das disciplinas espirituais, a Palavra de Deus renova as nossas mentes diariamente e impede ou dificulta o descontentamento; devemos evitar ou odiar a murmuração, pedir para que Deus nos sonde, pedir contentamento em oração, prepararmo-nos para sermos sal e luz, perceber que é uma luta constante, viver coram Deo, em oração, agradecendo em todas as circunstâncias, mortificando o pecado, guardando a boca, exercitando a fé, decorando e meditando em versículos bíblicos.

Por outro lado, conhecer e estudar acerca de heróis da fé na história da igreja, orar e conhecer sobre a igreja perseguida e envolver-me com missões, envolver-me com ministérios que me “estiquem”, procurar servir onde não me agradeçam/passe despercebido, visitar os idosos, doentes e à beira da morte mudará também a forma como penso, como me vejo e ajudar-me-á a compreender a providência de Deus na minha vida, mas especialmente, na vida de outros. Quando perceber que Cristo morreu não somente por mim, mas por muitos mais, quando perceber o que tem feito na história e no mundo compreenderei melhor o Seu poder, a Sua acção, a Sua soberania e providência.

Finalmente, uma questão prática e que tem a ver com a pregação que ouvi ontem.
Viver em comunidade implica também prestar contas aos outros e pedir contas a outros, um confronto santo, afiar pedra com pedra, duas perguntas que posso fazer aos que comigo estão numa comunidade local:  
1)      Vês padrões regulares de descontentamento na minha vida?
2)      Podes orar para que cresça no contentamento cristão em toda e qualquer circunstância?

E ter calma, porque o segredo do contentamento é perceber que se trata de uma corrida de longa distância, vai durar toda a vida.