terça-feira, 24 de março de 2020

The Big Country

The Big Country é um western de William Wyler, um daqueles realizadores subvalorizados por ter realizado todos os géneros e mais alguns, ser um excelente "tarefeiro", mas sem se dedicar a uma filmografia muito pessoal, com exceção talvez do que filmou no final da década de 1930 e durante toda a década de 1940 (dele são Ben-Hur, Roman Holiday, The Best Years of our Lives, The Letter, Jezebel, Mrs. Miniver, Funny Lady). A verdade é que os filmes, pelo menos os que vi, têm sempre um cunho pessoal, o último plano de Roman Holiday é delicioso, ou então sou eu que estou a tentar ver mais do que lá está, e este The Big Country é uma boa prova disso mesmo, como o plano da luta entre James McKay (Gregory Peck) e Steve Leech (Charlton Heston), para dar somente um exemplo.

Não sei se The Big Country é um western ou um anti-western, estão lá todos os temas recorrentes do género, a imensidão do território, a luta por território, os conflitos familiares e humanos numa comunidade, bem como a apatia/habituação dessa comunidade para com esses conflitos, o aparecimento de um estranho numa comunidade, enfim, faltam os índios, mas nem todos os westerns vivem do conflito entre índios e caras pálidas. Mas o filme não dá as cartas da mesma forma que um western dá, talvez porque a personagem de Peck nunca tente ser ou aja como um cowboy, é um marinheiro, com um determinado código e age de acordo com isso. 

McKay (Peck) é, então, não só o estranho porque chega a um sítio onde todos se conhecem, mas também pela forma de lidar com os problema que foge à regra, fugindo aos cânones do género. Talvez por isso a esposa, que não é fã de cowboiadas, tenha gostado tanto deste filme, a verdade é que se as temáticas estão cá e o clímax não foge ao usual, o filme balança entre o género e a fuga a este. 

A história é simples, talvez demasiado simples para 2h30 de filme, mas a verdade é que o filme não cansa e não perde fôlego. 
Chuck Connors, Gregory Peck e Carol Baker
O oficial James McKay (Peck) chega ao oeste para se juntar à noiva Patricia (Carol Baker), filha de Henry Terril (Charles Bickford), conhecido por todos como Major. A chegada é marcada pelo encontro com o grupo de Buck Hannassey (Chuck Connors), filho do inimigo do Major, Rufus Hannassey (Burl Ives). Mckay surpreende nesse momento, e em vários posteriores, a noiva pela forma como age ou, como na visão dela, não age. A presença deste corpo estranho e das suas idiossincrasias vai levar a mais alguns achaques com Steve Leech (Charlton Heston), o braço direito de Terril, apaixonado por Patricia. Os conflitos então vão-se multiplicando, entre os Terrils e os Hanasseys,  com a professora Julie Maragon (Jean Simmons) no meio, dona do terreno cobiçado pelas duas famílias, entre McKay e todos os outros, nomeadamente, a sua noiva e Leech. O final é formulaico, os relacionamentos (as suas indecisões e conclusões) estão à vista quase desde o primeiro momento, mas a dinâmica narrativa e o interesse pelo filme não diminuem por causa disso. Aliás, o o interessante na fórmula está não na forma como é utilizada, mas na forma como resulta e aqui vai resultando porque as personagens são cinzentas, passamos da certeza que um dos lados é o bom, para a certeza que nenhum é perfeito, há uma humanidade espelhada quase antagonicamente entre os homens da família e os seus capatazes, as personagens vão-se dando a conhecer, nas suas qualidades e defeitos, quase como se só pelo olhar de um estranho isso fosse possível.

Wyler usa o título The Big Country (na versão portuguesa Da Terra Nascem os Homens) como mote para diversos planos que acentuam a vastidão do território, quase tão vasto como a cobiça e desejo humanos que levam aos conflitos narrados. Os planos da visita de McKay a Maragon, da já citada luta, os planos iniciais e finais mostram a vastidão do território. Se o território é tão vasto porque é que causa tantas lutas e amores? Não haverá terra para todos? O elenco é sólido, Gregory Peck e Jean Simmons são eles mesmos, ganham e prendem-nos ao ecrã, Heston faz um raro papel secundário (acho-o sempre ligeiramente canastrão), mas é Burl Ives que se destaca, aliás o carisma e competência de Ives demonstra ainda mais a infeliz escolha de Bickford para antagonista deste, estão nos antípodas um do outro, um é grande, quase que não precisa de abrir a boca para fazer sentir a sua presença, mas quando a abre... é assombroso. Bickford não tem grande presença física, talvez nos convença antes de Ives entrar em casa deste durante a festa, mas a partir daí faz confusão a escolha.

Burl Ives
Resumindo, talvez não seja um daqueles westerns que nos vem à cabeça, mas The Big Country é um excelente filme, para amantes do género e não só.




Peck e Simmons


Peck e Simmons


Dark Clouds, Deep Mercy (III)

A terceira e última parte do livro, Viver com Lamento, tenta fazer algumas aplicações práticas, tanto pessoais (no que à leitura da Bíblia, ao pranto, ao aconselhamento, à confissão de pecados diz respeito) como comunitárias (em funerais, em orações congregacionais, na pregação e ensino, em pequenos grupos, nas questões raciais e na criação de cânticos espirituais).

"I now believe lamenting together is the church´s calling." p.176

Tendo em conta tudo o que já foi dito, Vroegop resume o lamento como uma linguagem para perda, uma solução para o silêncio, uma categoria para as queixas, uma estrutura centrada em Deus para "canalizar" os nossos sentimentos, um processo para a nossa dor e um caminho para a adoração.
Numa ideia, a prática do lamento prepara-nos para dificuldades futuras, já que nos leva por um caminho de restauração emocional e de crescimento espiritual. Como? Dando-nos uma linguagem mais profunda, uma empatia mais verdadeira e profunda com quem sofre, vivendo de forma prática a esperança escatológica que temos e a dependência no Deus soberano, poderoso e salvador em que acreditamos. O nosso louvor e adoração está cheio de vitória, mas afasta o lamento e as lutas por que passamos para segundo ou terceiro plano; sem querermos (e por vezes, conscientemente, também) ignoramos a linguagem presente nos salmos, e também a teologia associada, perdendo uma forma de aliviar e lutar contra as nossas provações e guerras espirituais. Somos mais do que vencedores em Cristo, claro, mas continuamos a passar por dificuldades, dor e espanto, quantas vezes tentamos (eu tento) passar estoicamente por essas situações sem perceber que estou a evitar exercitar e aprofundar a minha fé? 

"Lament helps us embrace two truths at the same time: hard is hard; hard is not bad" p.189

A frase batida do livro, que deixei para o fim, "chorar é humano, lamentar é cristão". Confiar em Deus não está em oposição à tristeza profunda, os cristãos lamentam expectativamente, acreditam que a morte e ressurreição de Jesus inaugurou a derrota da morte e do pecado.

"You see, Christianity needs competent lamenters. The gospel empowers the followers of Jesus to enter the dark moments of people´s lives. Those who know the story of hope and who believe in God´s goodness can be conduits of his grace. Lament allows us to hear the brokeness around us, weep with those who weep, and walk with them on the long road of sorrow." p.194

(Estes pequenos textos valem o que valem, e não dispensam a leitura do livro. A leitura deste em Dezembro foi um autêntico bálsamo e fonte de benção Lendo inglês, aceitem a sugestão).



segunda-feira, 23 de março de 2020

Dark Clouds, Deep Mercy (II)

A segunda parte do livro intitula-se Aprender das Lamentações e o seu foco é o livro de Lamentações de Jeremias.

"God whispers to us in our pleasures, speaks in our conscience, but shouts in our pains: it is His megaphone to rouse a deaf world". 
C. S. Lewis

O lamento não é somente uma expressão de tristeza mas também um memorial, Lamentações mostra-nos uma tensão entre a presença da dor e a soberania de Deus.

Vroegop dá-nos 3 lições dos primeiros 2 capítulos de Lamentações:

1) o pecado é o problema real

O lamento interpreta todo o sofrimento través das lentes da compreensão bíblica do pecado, a realidade do pecado deve interpretar as nossas dores e sofrimentos.

2) o meu pecado e sofrimento não são os únicos problemas

"Our natural bias is to individualize suffering (...) I need to be reminded that my pain is not the only pain." p. 102

"More than just providing confort and help in our times of sorrow, the grace of lament helps tune our hearts to the pain of others and to the foundational truths about God and the World. We can lament on behalf of our culture, identifying with the brokeness around us. When leaders fall, scandals shock or unrighteousness reigns, we have a prayer language to embrace the disappointment of casting judgement." p.102

3) O lamento acorda a alma, aponta-nos para a perspectiva divina

O lamento é, em certo sentido, uma disciplina espiritual que pode acordar as nossas almas da apatia espiritual. 

O capítulo 3 de Lamentações tem como contexto a destruição de Jerusalém e convida-nos à confiança na soberania de Deus ainda assim. Em tempos de Covid-19, é importante não ignorarmos esta verdade, Deus é soberano, tanto na riqueza, como na pobreza, tanto na saúde como na pandemia.
Vroegop anima-nos, o lamento bíblico é transformativo porque não só dá voz à dor que sentimos, mas também porque ancora o nosso coração às verdades em que acreditamos. 

O lamento arrisca a esperança quando a vida é dura.

"Faith is a footbridge that you don´t know will hold you up over the chasm until you´re forced to walk out onto it" 
Nicholas Wolterstorff p.110

"Lamentations shows us that hope does not come from a change of circumstances. Rather, it comes from what you know to be true despite the situation in front of you. In other words, you live through suffering by what you believe, not by what you see or feel." p.110

"Lament can help you by reharsing the truth of the Bible to preach your heart, to interpret pain through the lens of God´s character and his ultimate mercy." p.111

O lamento é a oportunidade de expressarmos a tristeza e admiração que sentimos pelas dificuldades e situações tenebrosas porque passamos, ao mesmo tempo que ensaiamos as verdades em que acreditamos. É viver pela fé, mas também a fé que professamos!

De uma forma prática, Vroegop dá-nos 4 verdades que Jeremias nutriu no seu coração:

1) As misericórdias de Deus nunca acabam (3:22-24)

Mesmo no pior dos cenários, Deus é suficiente, mesmo no choro e miséria humana Deus não deixa de ser Deus!

2) Esperar não é em vão (3:25-27) 

Esperar no Senhor, biblicamente, é colocar a minha esperança Nele. Esperar é das coisas mais difíceis que podemos fazer porque na realidade não estamos a fazer nada, estamos à espera que Deus faça! Para quem, como eu, gosta de estar no controlo da sua vida, da sua casa, das suas finanças, esperar coloca-me num lugar desconfortável, porque afirma de forma prática que eu não sou o senhor da minha vida!

3) A palavra final ainda não foi proferida (3:31-32)

O sofrimento não é o fim, choramos por causa da dor e sofrimento, mas devemos olhar com expectativa para o que Deus ainda trará, esse também é um dos propósitos do sofrimento, olhar para o futuro redentor prometido por Deus.

4) Deus é sempre bom

Há um propósito amoroso, redentor, gracioso e misericordioso por trás de cada lágrima.
"Todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus".

O capítulo quatro da Lamentações ajuda-nos a ver quais são os nossos ídolos. O lamento funciona como um memorial à futilidade de confiar em algo ou alguém além do nosso Deus, trocando por miúdos, as dificuldades ajudam a revelar os nossos ídolos. 

"Sorrow comes from losing one good thing among others... Despair, however, is inconsolable, because it comes from losing an ultimate thing. When you lose the ultimate source of your meaning or hope, there are no alternative sources to turn to. It breaks your spirit."
Tim Keller p. 124

Em que é que eu coloco a minha segurança e confiança? A dor pode, para além de ser uma plataforma para a adoração, ser também uma forma de me levar ao crescimento espiritual e ao arrependimento. Vroegop faz uma lista de coisas em que tendemos a colocar a nossa confiança, da segurança financeira a pessoas, do desejo de conforto cultural (ignorando a miséria e pobreza à nossa volta) à presunção do favor divino (somos o povo de Deus, Deus estará sempre connosco, essa foi a desculpa do povo para ficar cego ao seu próprio pecado e à graça divina) passando pela tentação de fazermos dos nossos líderes espirituais ídolos. 
Tenho desenterrado os ídolos do meu coração? Tenho-me agarrado a eles? Que este seja um momento de refrigério espiritual e de identificação dos meus ídolos. 

Lamentações termina apontando para Deus, sem nos dar o final da história. Não sei se contigo, mas esse facto mexe comigo. O ponto para o autor é o de o lamento ser uma linguagem de reorientação espiritual, a questão é que o lamento não é um passo de mágica - lamenta e tudo será resolvido, não! O lamento não resolve todas as situações e problemas da minha vida, a resposta pode tardar, pode nem ser aquela que eu desejo, mas o lamento é a linguagem de oração para esta realidade.

A oração por restauração e renovação no final de Lamentações aponta para algo que só Deus pode fazer, mas também para a nossa maior necessidade, estarmos bem com Deus, ou seja, o lamento é a linguagem de quem conhece a história completa, o Evangelho.

(continua)
























domingo, 22 de março de 2020

Dark Clouds, Deep Mercy (I)

Os adeptos da teologia da prosperidade olham para a dor como um resultado da falta de fé, dizem eles que Deus não quer que soframos, se determinada pessoa está doente ela pode ser curada, se tal não acontece o problema está nela e não em Deus ou na pessoa que a tenta curar. De uma só vez ignoram todos os textos acerca de Moisés, David e Jesus, para dar somente três exemplos. A fé para estas pessoas é a moeda de transacção para a felicidade e riqueza, a santificação (sem a qual ninguém pode ver Deus) é trocada pela prosperidade material e monetária. Tive em tempos uma conversa com um destes líderes religiosos, que desconhecia a Bíblia de forma atroz, que ignorava na prática o que significa exegese e que usava cada versículo como uma plataforma para uma oratória de cinco tostões ("palavras de poder" no seu entender) que contradizia vez após vez a mensagem bíblica - o importante não era a salvação, mas a sua satisfação material.

Ninguém no seu perfeito juízo quer sofrer, mas qual é o papel da dor e do sofrimento nas páginas das Escrituras? Mark Vroegop escreveu um excelente livro, Dark Clouds, Deep Mercy - Discovering the Grace of Lament, sobre isso e especificamente sobre o papel do lamento e das lamentações na vida dos crentes.

De uma forma geral, Vroegop descreve o lamento como o acto de levar as nossas tristezas e dores a Deus enquanto processamos essas mesmas dores, é sofrer coram Deo, é lamentar, chorar, admirar-se com o que aconteceu/acontece perante Deus, colocando esses assuntos aos Seus pés. Neste sentido, lamentar é unicamente Cristão.

"The practice of lament - the kind that is biblical, honest, and redemptive - is not natural for us, because every lament is a prayer. A statement of faith. Lament is the honest cry of a hurting heart wrestling with the paradox of pain and the promise of God´s goodness." p.26

O livro de Vroegop foi extremamente importante para mim, em situações que abanaram a minha fé e equilíbrio espiritual, leiam os textos acerca dos elevadores, neste mesmo blog e terão uma ideia. Há coisas que sabemos teoricamente e pensamos que nenhuma situação nos abalará, falava com um amigo acerca de uma verdade simples, aquilo que o pode derrubar não é o que me derrubará obrigatoriamente, quantas vezes olho para as circunstâncias de alguns irmãos e não percebo o que os atormenta tanto, porque determinadas áreas podem ser aquelas em que sou mais forte, e quantas vezes o contrário pode acontecer? Também aqui preciso de maior empatia para chorar com os que choram e rir com os que riem.

O lamento é então a oração na dor e em dor que leva à confiança em Deus, o lamento coloca questões como "onde estás, Deus?" e "se me amas, se estás aqui, porque deixas isto acontecer?"
O lamento é o percurso da dor à adoração e louvor.
A primeira parte do livro usa Salmos de Lamento (1/3 do saltério é composto por Salmos de Lamento) e intitula-se Aprender a Lamentar, de forma prática o autor divide o lamento em quatro acções:

1) dirige-te a Deus (Salmo 77)

Para um cristão a existência de Deus parece ser a verdade mais básica em que acredita, mas quantas vezes é que na dor e provações agimos como ateus? É nestas circunstâncias adversas que orar, falar com Deus parece ser um exercício impossível. Clamar a Deus no sofrimento é reconhecer a sua existência, ficar em silêncio perante Deus quando se sofre, i.e., ignorar a sua presença e poder, é a maior prova de descrença. O desespero vive da ideia que Deus não se preocupa, não ouve. 
O lamento direciona as nossas emoções, a nossa dor, as nossas questões e dúvidas a Deus, em vez de nos fecharmos em nós e nos mortificarmos em dor e pecado.

É preciso fé para vocalizar essa dor, esse espanto, as dúvidas pelas quais passamos.

"The biblical language of lament is able to redirect weeping people to what is true despite the valley they are walking through." p.36

O primeiro passo então é orar, que a minha acção seja linguagem em oração. Deus está presente.

2) traz as tuas queixas a Deus (Salmo 10)

O segundo passo é trazer as nossas queixas a Deus, Vroegop escreve que a piedade não é uma forma de estoicismo, sem queixa não há lamento, o sofrimento traz naturalmente ira, negação, desespero, amargura; perante aquilo em que acreditamos acerca de Deus e do Seu poder a alternativa é trazer as nossas queixas, as nossas dúvidas em oração.
Parafraseando o autor, o lamento é a linguagem de um povo que acredita na soberania de Deus mas vive num mundo de tragédias. Quão importante será nas actuais circunstâncias não perder isto de vista?

Por isso é importante trazer as nossas questões perante Deus - mesmo ou principalmente quando Deus parece distante - não é usual pensar ou achar que Deus parece esconder-se quando sofro? Desta forma as nossas questões devem lidar com o como é que (13:1-2; 35:17; 74:10; 94:3) e por que é que estas coisas acontecem (Salmo 22:1; 44:23-24; 80:12)?

Vroegop é assertivo, Deus não somente ouve, como lida com as nossas dores, medos, ira e desilusão, a nossa frustração e queixas são uma oportunidade de nos achegarmos a Deus e não de nos afastarmos Dele.

"I found that pain made me myopic. It tended to narrow my focus on the sorrow that took over my life. Nothing else mattered (...) With this desperation for relief, it was easy to become preoccupied with the weight of sorrow, the unfairness of life, or the fear of never being happy again. Left unchecked, this could create a self-focused emotional spiral. But as I wrote out my complaints and talked to the Lord about them, it was surprising how they lost their hold on me." p. 51

O lamento ensina-nos a pedir e confiar, a olhar para a queixa como um caminho para reorientar o meu pensamento e sentimentos; perceber que há uma forma correcta de nos queixarmos é importante,  como importante é fazê-lo com humildade, a forma  mais simples e segura de o fazer é orar a Bíblia, orar as queixas e dúvidas de servos de Deus e reconhecer que Jesus conhece as minhas dores e dificuldades (Hebreus 4:15). A queixa é um caminho para me aproximar de Deus.

3) pede a Deus com confiança (Salmo 22)

O terceiro ponto é para mim um ponto importante, confio em Deus, mas por isso às vezes oro com algum distanciamento, porque coloco as coisas nas suas mãos, sem exercitar muito a minha fé. É um paradoxo, eu sei, mas sou uma criatura de paradoxos. Assim, a petição feita a Deus deve ter como base o Seu carácter e as suas acções passadas, como Deus é e o que Deus fez no passado compele-nos a fazer pedidos corajosos, ou seja, os pedidos são feitos com base em quem Ele é e no que Ele prometeu.

"Yet means that I choose to keep asking God for help, to cry out to him for my needs, even when the pain of life is raw(...) Part of the grace of lament is the way it invites us to pray boldly even when we are bruised badly." p.59

O desespero da dor, em conjunto com o conhecimento do carácter de Deus, leva a pedidos corajosos, a verdade é que oramos de forma diferente quando passamos pela dor e estamos desesperados. 

"It shines a spotlight on our powerlessness to control everything." p.60

Vroegop deixa 9 tipos de pedidos para nos ajudar a compreender melhor este ponto.

1) Levanta-te, ó Deus (Sl. 3, 7, 9, 10, 17, 74, 94);
2) Ajuda-nos, Senhor (Sl. 60:11-12);
3) Lembra-te da tua Aliança (Sl. 25:6);
4) Que a justiça seja feita (Sl. 83:16-18);
5) Não te lembres dos nossos pecados (Sl. 51; 79:8-9);
6) Restaura-nos (Sl. 80:3);
7) Não fiques em Silêncio, ouve-me (Sl. 28:1-27; 86:6);
8) Ensina-me (Sl. 143:10; 90:12; 86:11);
9) Vinga-me (Sl. 35:23-24; I Pd. 2:23).

"Lament is an expansive prayer language". p.65

4) confia e louva a Deus (Salmo 13)
Finalmente, o último ponto.

"Suffering refines what we trust and how we talk about it." p.71

A dor pode tornar-se uma plataforma para a adoração, o sofrimento pode levar-nos à confiança. O sofrimento deve-nos levar à confiança permanente, a evitar a passividade espiritual.

O salmo 13 mostra lamentações de David baseadas no carácter de Deus, o "mas" mostra isso. A confiança não depende das circunstâncias.

"Learning to lament is a journey as we discover how lament can provide mercy when dark clouds loom. It is how we learn to sing and worship when suffering comes our way." p.84

O caminho do lamento não é feito na nossa força, é feito na dependência de Deus, no aprofundar do conhecimento Dele e da confiança Nele. Que nos maus momentos aprofundemos o nosso relacionamento com Deus orando, trazendo as nossas dúvidas e dificuldades aos seus pés para que a nossa fé e confiança aumentem à medida que saboreamos mais da Sua graça e misericórdia.



segunda-feira, 9 de março de 2020

Chico Bento - Arvorada é mais um excelente título de Graphic MSP. 

Arvorada segue o relacionamento do caipira Chico Bento com a sua Avó Dita, Orlandeli cria uma trama em que mostra a importância dos laços familiares, da forma como somos moldados e educados pelos que mais amamos.


O livro começa com a Avó Dita a chamar Chico para ver um ipê amarelo em flor, mas Chico troca a visão da árvore por um bolo quente. 

No dia seguinte, as flores caíram e o momento fugiu. A Avó explica-lhe que precisamos de parar para apreciar a beleza do que nos rodeia enquanto podemos. Num livro em que a vida do campo impera, há pequenos momentos para enxergar a beleza, da pesca ao saborear uma laranja, de nadar pelado no rio ou riacho a apanhar goiabas, mas Orlandeli não nos deixa ignorar os relacionamentos familiares e amizades de Chico Bento.



Arvorada lida com a morte ou com a presença desta, com o papel da avó como construtora ou co-construtora da personalidade de Chico, a forma como a família nos ensina, molda e educa. Arvorada é sobre a importância de pararmos e vermos a beleza na natureza, mas também sobre a importância de amarmos os que nos amam e rodeiam, de passarmos tempo com eles. 


A simplicidade da vida no campo, o valor das amizades, o medo de perder um ente querido, o amor e a dor, a vida e a morte, tudo é embrulhado numa arte que une o bucólico e o mitológico. Uma singela mas bela história de Chico Belo.














Jeremias - Pele

Graphic MSP é um selo da Editora Maurício de Sousa, publicado pela Panini. A ideia é editar Graphic Novels com personagens da Turma da Mônica para um público jovem-adulto. 



Jeremias de Rafael Calça e Jefferson Costa aborda a questão do racismo. 
Jeremias é uma criança que adora uma banda-desenhada específica, o Guardião da Noite, e sonha ser astronauta. 

O livro apresenta-nos um Jeremias feliz, no cinema e em casa, num relacionamento cúmplice com os pais, é na escola, quando a professora decide pedir aos alunos que vistam a pele de um profissional e escrevam uma redacção sobre o tema, que os problemas começam. Apesar de negro, Jeremias é um bom aluno, e escrevi apesar propositadamente, porque a professora não vê Jeremias, a sua inteligência, capacidade ou individualidade, a cor de Jeremias impede-a, alguns colegas ligam infundadamente o sucesso de Jeremias ao copianço. A professora distribui as profissões pelos alunos e Jeremias fica com a de pedreiro. É neste contexto que Jeremias vai confrontar-se com a diferença com que alguns o tratam, a cor leva a um tratamento distinto, a uma expectativa negativa. Mais à frente, o pai vai-lhe dizer que porque é negro terá de se esforçar mais, terá de ter mais cuidado no que diz, terá de ser duplamente paciente, duplamente esperto, terá de criar uma casca.


Jeremias - Pele é uma obra maravilhosa pela forma directa mas também terna (relativamente ao tratamento das personagens principais) como relata o racismo em diversas ocasiões,  a moça que não se senta no autocarro porque o único lugar vazio é ao lado de Jeremias, o pai de Jeremias que é mandado parar pela polícia só porque é preto; a reacção do pai, tentando explicar ao filho como reagir, mas que falha no tom ao reviver a sua experiência. O traço de Jefferson Costa traduz os sentimentos das personagens (a confusão, a ira, a estranheza, a decepção, a tristeza, a abnegação) de forma única e competente.


Há uma imagem que me fica, entre tantas, Jeremias a olhar para o lápis e caderno, que percebemos serem materiais que lhe são queridos, e o desenho mostra-os com um tamanho maior do que o normal, o que lhe é pedido pesa na criança que é e transtorna as suas paixões. Quantas vezes isto acontece na escola? 

Jeremias é instado pelo pai a criar uma casca, a banda desenhada mostra a importância da pele em contraste com a casca; a vergonha, a confusão, o medo, a coragem, o orgulho de Jeremias mostram como a pele é mais dorida e corajosa que a casca; Jeremias quer ser quem é apesar da visão que outros tenham da sua pele, é um caminho longo e doloroso, mas ele está disposto a lutar por isso!
Jeremias - Pele é uma obra genial pela forma como agarra o racismo pelos cornos, usando exemplos vividos próprios autores, Pele é realista, experiencial e o tom que adopta é fulcral no sucesso da história, a BD é usada em toda a sua força, com argumento e arte incisivos numa sinergia única.

Altamente recomendado.













segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Dersu Uzala


Um filme russo escrito e realizado por um japonês? Após um falhanço comercial (Dodeskaden) no seu Japão natal e das dificuldades consequentes em financiar os seus próximos projectos, que o levou quase ao suicídio, Kurosawa vai filmar Dersu Uzala à União Soviética, com promessas de total liberdade para o fazer.
O resultado é uma obra-prima, vencedora do Óscar para Melhor Filme Estrangeiro em 1976.



O filme é a adaptação de um livro de aventuras biográfico, que Kurosawa leu em adolescente e que tentava adaptar há anos, conta a história da amizade do capitão Vladimir Arseneiev, explorador nas regiões da Sibéria, com Dersu Uzala, um mongol, habitante da estepe. Um representante do mundo moderno aprende, surpreende-se, é discipulado por um velho que vive na e da natureza. O relacionamento entre os dois é o relacionamento entre mestre e discípulo, uma lição “ecológica” e humanista, Arseneiev aprende o estilo de vida de Dersu, que vive do que a natureza lhe dá, que a respeita, que fala com os seus elementos, os soldados riem quando o velho mongol fala com o fogo, o vento ou com o tigre, tudo na natureza é um ser com quem se pode dialogar. Mas um homem que mais do que modificar a natureza pelas suas necessidades, a usa em equilíbrio, e a sabe ler, Dersu vai ser importante para o grupo de homens ao saber quando o nevoeiro se levanta ou quando a chuva pára, um ser que vive à mercê da natureza sabe lê-la para sobreviver, não é apanhado desprevenido. O respeito pelo próximo está presente, por exemplo, na cena em que fabricam uma casa para se abrigarem, mas que deixam para outros, Dersu faz questão de deixar sal, comida e fósforos para o “outro” que por ali possa passar.
Kurosawa filma a estepe, a paisagem agreste e natural como ninguém, a cena em que os dois se perdem e são apanhados pela noite e pelo vento frio e em que rapidamente criam um abrigo é paradigmática, com a luz natural a desaparecer, mas continuamos no jogo de sombras e luz presente em todo o filme. Kurosawa filma os elementos naturais como ninguém, é comum na sua filmografia a presença destes na narrativa, não como algo que acontece, mas como movimentos narrativos, aqui não foge à regra.


Kurosawa filma as aventuras debaixo da ideia de que há um mundo a desaparecer, mais do que o mundo natural, é o mundo daquelas pessoas, o mundo interior, humano, social, animista que desaparece.
O filme termina com a morte de Dersu, incapaz de viver fechado em quatro paredes, incapaz de se adaptar à ausência da natureza numa grande cidade, Dersu sucumbe à ganância humana.
Poucas vezes se filmou a amizade desta forma, por agora, o meu filme favorito de Kurosawa, deixando Os Sete Samurais em segundo lugar!